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Marcos Weiss Bliacheris

Você acredita nisso?

08.01.2016

Hoje vamos falar de minorias oprimidas há séculos, que sofreram perseguições, que não puderam viver conforme sua natureza e foram forçadas a aceitar que nasceram em um corpo que não era normal. Sim, vamos falar destas pessoas que vivem entre nós e que vem de grupos que sofreram tanto: ruivos e canhotos.

Os ruivos representam apenas entre 1 e 2% da população mundial, um pouco mais em algumas regiões da Europa, chegando a 10% na Escócia.

Na Antiguidade, egípcios já tinham preconceito contra ruivos. Os egípcios o associavam ao deserto vermelho, o que levou muitos ruivos a ser sacrificados como oferenda. Indianos impediam mulheres ruivas de casar. Aristóteles comparava os loiros à bravura do leão e associava os ruivos ao caráter duvidoso da raposa. Os gregos acreditavam que os ruivos podiam virar vampiros, crença que persistiu na Idade Média.

Aliás, época terrível para ser ruivo. Quando se acreditava que gordura de ruivo era um ingrediente para se produzir poderosos venenos.

Ruivo, vermelho=cor do pecado. É só olhar os quadros da época. Os ruivos famosos das pinturas medievais: Caim, Maria Madalena e, claro, Judas. Todos do Top 10 dos vilões bíblicos.

A pior época mesmo para ser ruivo foi a Inquisição. Principalmente para as mulheres. Mulher e ruiva, quase certeza que era bruxa.  O Malleus Maleficarum, que é um manual medieval para reconhecimento de bruxas,  diz que ruivos de olhos verdes é sinal de três coisas: bruxa, lobisomem ou vampiro.

Os judeus também foram largamente identificados como ruivos pela Europa afora, da Espanha ao Leste Europeu. Shakespeare associou a cor de cabelo, “a cor da dissimulação” a personagens judeus e Fagin, um dos maiores vilões de Dickens era….judeu e ruivo!

Os canhotos também passaram por maus bocados.

No cristianismo e islamismo, os fieis sempre estão à direita de Deus. O folclore cristão medieval dizia que o próprio Diabo era canhoto e batizava seus seguidores com a mão esquerda.

Na Idade Média, os canhotos também eram alvos fáceis de ir para a fogueira, acusados de bruxaria, adoradores do Diabo entre outras gentilezas. Desde aquela época, em várias partes do mundo islâmico, as pessoas se cumprimentam com a mão direita e a esquerda é a da higiene pessoal…

Lembremos que o contrário de canhoto é destro – quem tem destreza. Já o canhoto, em latim, é sinister. Sinistro em italiano, que dispensa comentários.

Durante séculos, escrever e fazer as coisas com a mão direita foi considerado certo e fazê-las com a mão esquerda foi considerado errado. Quem era destro, era “normal”. Quem era canhoto, era forçado a se adaptar à regra vigente. A noção de que ser canhoto é “normal” não tem sequer cem anos de história.

Minha avó paterna, Clara Bliacheris, que faria cem anos no último dezembro, era canhota. Contava que na sua infância foi forçada a escrever com a mão direita na escola. Escrever com a mão esquerda, que era o seu natural, era considerado errado e era receita certa para punição.  Ela contava isso de forma sentida, magoada.

No início do século passado, cerca de 3% da população admitia ser canhota. Hoje, sabe-se que 10% da população, em média, escrevem com a mão esquerda. Ou seja, a pressão de que ser canhoto era errado e que ser destro era o certo fazia com que muita gente escondesse essa condição.  Com o relaxamento dos preconceitos sociais, muitos canhotos “saíram do armário”.

Lendo as notícias dos jornais de hoje, muitas vezes penso no que um hipotético homem ou mulher do futuro irá pensar da gente, de todo ódio destilado em nossas redes sociais e dou um sorriso amarelado.

Muitas vezes tenho a nítida sensação de que ele irá olhar para nossas opiniões com a mesma mistura de horror e desdém que temos para os preconceitos ancestrais contra ruivos e canhotos e perguntar como isso era possível. Que irá ler sobre nosso cotidiano como você leu os parágrafos acima.

Penso que ele irá olhar nossas escolas e instituições e se perguntará se elas tentaram encaixar crianças diferentes como autistas, disléxicas, com transtornos de déficit de atenção, nos mesmos conceitos de “normalidade” a que um canhoto era submetido. Se elas não perderam horas e horas preciosas de seu tempo sendo forçadas a a se adaptar a um modelo de ensino que, assim, não se difere muito do arcaísmo que pretendia transformar canhotos em destros.

Vejo que Aristóteles, Shakespeare e Dickens, que foram geniais, não foram imunes aos preconceitos de suas épocas e carregaram também os defeitos de suas épocas de forma tão humana. E, assim também vamos dando algum jeito de nos enganar, afinal somos “do bem”, somos “cidadãos de bem”.

Enfim, tem horas que dá uma vergonha do que irá pensar de nós esse homem do futuro….

2 Comentários a Você acredita nisso?

  1. Tamara Socolik's Gravatar Tamara Socolik
    8 de janeiro de 2016 at 12:58 | Permalink

    Rica análise, Xixa! Sei de gente da nossa geração que foi forçada a deixar de ser canhota no jardim de infância, no Rio. Ou seja, não tem nem 100 anos. E o mito da desonestidade ruiva passou até pelo nosso povo. Há conto ídiche que relata a reserva que um sogro recomenda ao genro ter contra o “roiter id” – o “roiter”, nesse caso, não é comunista, é ruivo, mesmo.

  2. charles's Gravatar charles
    4 de março de 2019 at 06:01 | Permalink

    Boa noite, eu sou Charles
    Gostei muito do assunto. Fico impressionado com a falta de compreensão dos humanos. Associam o que não conhecem sempre a algo obscuro, oculto, etc… nunca a algo bom. Esse preconceito com canhotos rs … nasci no interior, hoje 26 anos, minha mãe católica não aceitava que eu me alimentasse com a mão esquerda, dessa forma comecei a desenvolver habilidades com a mão direita, porem em muitas tarefas, sou canhoto. Ela não fazia por maldade, vejo que é apenas influencia da cultura. Atualmente não tenho crenças religiosas, sempre busco manter a mente aberta a novos conhecimentos. Não sou antirreligioso, apenas busco valores morais e o bem coletivo para me orientar e não valores religiosos.

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