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Rafael Bán Jacobsen

Físico, músico, escritor e judeu (não necessariamente nessa ordem). Mais jovem membro da Academia Rio-Grandense de Letras (imortal, porém morrível, portanto). Autor dos livros "Solenar" e "Uma leve simetria", também edito a revista de estudos judaicos WebMosaica. Neste espaço, escreverei sobre as três coisas que mais me fascinam: arte, filosofia e judaísmo.

Uma lição do Sinédrio

05.01.2016

Ilustração do Sinédrio em antiga enciclopédia (People's Cyclopedia of Universal Knowledge – 1883)

Ilustração do Sinédrio em antiga enciclopédia (People's Cyclopedia of Universal Knowledge – 1883)

O Sinédrio (ou Sanhedrin, em hebraico) era a corte suprema da lei judaica, que tinha por missão administrar a justiça, sempre à luz da lei divina, aplicando os princípios expressos na Torá Escrita (e explicados pela Torá Oral) à solução de conflitos do dia a dia. A partir da dominação romana na Terra de Israel, o Sinédrio teve seu poder gradativamente diminuído, até que, durante as perseguições de Constantino, entre 337-361 E.C., o Sinédrio foi forçado à clandestinidade e acabou dissolvido. Muitos dos seus ensinamentos, porém, seguem atuais.

Uma regra bastante curiosa para o funcionamento da corte, conforme registra o Talmude Babilônico em seu tratado Sanhedrin (fólio 17a), era a necessária absolvição de um réu caso ele fosse considerado culpado por unanimidade. A velha sabedoria judaica já nos alertava para algo que o escritor Nelson Rodrigues, séculos depois, reafirmaria de modo hiperbólico (como, aliás, lhe era peculiar): toda unanimidade é burra. Os juízes que compunham o Sinédrio, com sua experiência e sagacidade, aprenderam a desconfiar de qualquer parecer sem dissonâncias e mesmo de evidências gritantemente cabais.

Agora, essa prescrição milenar encontra amparo científico: em artigo a ser publicado em breve no periódico The Proceedings of The Royal Society A, um grupo de pesquisadores australianos e franceses investiga o que se chama de “paradoxo da unanimidade”, isto é, a noção de que a abundância de evidências sobre determinado fato, antes de revelar a veracidade dele, pode indicar – bem ao contrário – a presença de um erro sistemático no processo de análise.

O trabalho, intitulado “Bom demais para ser verdade: quando a evidência esmagadora não convence”, demonstra o paradoxo no caso em que testemunhas tentam identificar um suspeito entre várias pessoas postas lado a lado, como se costuma fazer em delegacias de polícia. Os pesquisadores (um time de engenheiros, físicos e matemáticos) mostraram que, à medida que aumenta o número de testemunhas que apontam unanimemente para um determinado suspeito, a chance de elas estarem corretas diminui até não ser mais confiável do que um palpite aleatório.

Esse resultado contraria nossa intuição. Pensamos que, se muitas pessoas, de modo independente e anônimo, atestam a identidade de um suspeito, não é possível que todas elas estejam erradas; no entanto, a rigor, é muito pequena a chance de que um grande número de pessoas concorde absolutamente. Portanto, nesse caso, a confiança na unanimidade ampara-se em algo bastante improvável. Em outras palavras: obter um grupo de testemunhas numeroso e unânime é tão difícil, de acordo com as leis da probabilidade, que é mais plausível que o sistema não seja confiável.

Não é à toa que a cultura judaica tenha sempre valorizado o contraditório na tomada de decisões e na construção do conhecimento. A visão contrária, mesmo sobre quesitos aparentemente inquestionáveis, sempre teve espaço garantido entre nossos sábios, a ponto de Rabi Yehudah HaNasi ter afirmado: não se deve dar a ninguém um assento no Sinédrio a menos que ele seja capaz de provar a pureza dos répteis a partir dos textos bíblicos. A capacidade de questionamento, argumentação e discordância é, em grande parte, responsável pela manutenção do judaísmo e pela fixidez de seus preceitos fundamentais – eis outro delicioso paradoxo.

1 Comentário a Uma lição do Sinédrio

  1. 12 de janeiro de 2016 at 17:27 | Permalink

    Esse enfoque é interessante. O conselho ou sinédrio era algo levita. E se estruturou junto com os Templos depois mas nasceu com Aarão já no deserto. Depois evoluiu. O pai do Judas Iscariotes era do Sinédrio. Idem o José de Arimatéia era um dos integrantes desse conselho. É o que dizem os livros apócrifos. Poucos sabem desse conselho, composição, etc e como eles se articulavam com os profetas. Interessante que depois Jerusalém e Samaria se separaram e ninguém sabe como ficou o conselho. É um tema instigante.

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