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Marcos Weiss Bliacheris

Ano Novo das Árvores

25.01.2016

No próximo dia 25 de janeiro, no dia 15 do mês de Shvat do calendário hebraico, comemoramos o Tu Bishvat, o Ano Novo das Árvores.

Sendo essa uma coluna/blog que fala de sustentabilidade, havendo eu trabalhado no Serviço Florestal Brasileiro e tendo um filho com nome de Amir (copa de árvore em hebraico), não há chance alguma de deixar passar essa data em branco.

Difícil é escolher o que falar… Por isso, começo com a história desta festa, deste chag.

Temos a impressão que a religião não muda. Que as festas e os chaguim são comemorados exatamente da mesma maneira desde o início do tempo. Mas isso é um engano, os chaguim mudam muito. A festa que é comemorada de um jeito aqui, pode ser comemorada de outra forma em Israel. Ou nos Estados Unidos. Sefaradim e askenazim podem comemorar de formas diferentes também. A riqueza do judaísmo está na unidade e na diferença entre um judeu do kibutz e um de Nova Iorque, sem se falar de um de Bukhara, de um etíope, entre tantas comunidades.

As festas também ganham e perdem diferentes significados com o tempo. As leituras mudam. Se há o imutável, há tantas interpretações e tantos sentidos quanto há judeus no mundo. Um judeu medieval via o mundo de forma diferente que os judeus de hoje e assim também as festas.

A festa de Tu Bishvat não é uma festa bíblica. Ela aparece na Mishná como um dos quatro “Rosh Hashaná”que temos: quatro inícios de contagem do ano.

O primeiro de Nissan marca o início do ano dos reinados de Israel e dos chaguim (festividades judaicas); o primeiro dia do mês de elul marca o início do ano para a contagem do dízimo de animais. O primeiro de Tishrei, Rosh Hashaná propriamente dito, marca o aniversário da criação do mundo. E 15 de shvat marca o ano novo das Árvores e marco do início do ano para as leis relativas a árvores e consumo de frutos.

Ou seja, era um assunto haláchico (jurídico-legal) – como o ano fiscal ou o anos escolar, em nosso cotidiano.

A maior mudança na forma de comemorar esta festa dá-se na Idade Média, pelas mãos do grande cabalista Isaac Luria. Ele estabelece uma cerimônia, um Seder de Tu Bishvat e seus discípulos na mística Tzfat comemoram a data comendo frutas.

Este costume se espalha, primeiramente entre as comunidades sefaradis, onde se recitam preces alusivas a data e são lidos trechos do Talmud ligados à agricultura. Detalhe: tomam-se quatro copos de vinho, como no Seder de Pessach, comendo uma diferente fruta em cada um deles.

Esta prática dá origem a um costume ashkenazi: o consumo de frutas secas da Terra de Israel. E, nos últimos cem anos, doações para o plantio de árvores pelo Keren Kaiemet entraram nos costumes da festa.

Mas a grande estrela da festa é ela: a árvore.

O Homem é comparado à árvore em diversos trechos bíblicos. Em um trecho é falado “pois o Homem é uma árvore no campo”. No primeiro capítulo dos Salmos, o homem bem-aventurado é comparado à árvore plantada junto a um riacho. E em Jeremias, o Homem é comparado a uma árvore no deserto. Os Salmos descrevem o tzadik, o homem justo como a boa árvore em um bom solo, a árvore que dá bons frutos.

O Rabino Adin Steinsaltz faz algumas comparações bastante interessantes entre o homem e árvore, baseadas na tradição judaica.

Segundo ele, o primeiro elemento que compartilhamos com a árvore é a ligação com a Terra, com o solo. Somos seres conectados a algo maior, não nos bastamos em nossa individualidade. Temos que estar plantadas em um solo, em uma comunidade, para sermos fortes e florescer.

Ari Shavit, famoso jornalista israelense, fez várias entrevistas com Ariel Sharon. Em muitas falaram do apego à terra, ao solo. E Ariel Sharon sempre falava das árvores mais antigas de Israel. Conhecia seus locais e suas histórias. Como a figueira onde Herzl se encontrou com o Kaiser da Alemanha e ainda está lá em Holon. Nada simboliza mais estar enraizado na terra do que a árvore.

E o renomado rabino fala que, o que liga a árvore ao solo são suas raízes. Fala nas raízes judaicas, que sustentam e dão força para o tronco. Não existem plantas sem raízes, só mesmo as de plástico, que se não morrem tampouco tem vida.

Um interessante insight do rabino é que, plantados no solo, nem por isso deixamos de nos renovar. E as árvores nos mostram que mudar e se renovar não nos transformam em uma nova criatura. Temos novos galhos, novas folhas. Florescemos, frutificamos. Mas, em nosso interior, somos os mesmos, com novos anéis mostrando a passagem do tempo.

Encerrando, lembramos o Pirkei Avót (Ética dos Pais), este pequeno livro com um conteúdo imenso.

Nele, são lembradas as palavras de Rabi Elazar ben Azariá que costumava dizer que a pessoa cuja sabedoria excede suas boas ações, a que se pode comparar? A uma árvore cujos galhos são numerosos porém suas raízes são poucas, e vem o vento, arranca-a e vira-a de cabeça para baixo. Já aquele cujas boas ações superam sua sabedoria são como uma árvore cujos galhos são poucos mas cujas raízes são numerosas, de modo que mesmo que viessem todos os ventos do mundo e soprassem sobre ela, não poderiam movê-la de seu lugar.

O segredo está em equilibrar os nossos estudos, aspirações, a sabedoria com nossa prática diária e jamais se desconectar da vida e da realidade. Como dizia Paulo Freire: “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”

E que assim seja neste Tu Bishvat e em todos nossos dias. Com atos repletos de valores e significados, para que possamos agir enraizados em nossas comunidades, firmes em nossos valores, para que sejamos, como no texto bíblico, como árvore plantada junto às águas, que estende suas raízes até a correnteza, que não sente quando chega o calor, com a folhagem verdejante, que não se preocupa com a seca e sempre frutifica.

Chag Sameach!

 

Fontes: Ao escrever este texto, utilizei várias referência dos livros “Haaretz e-books – Guide for the Perplexed: The Fantastically Strange History of Jewish Holidays” de Elon Gilad e de “Change & Renewal: The Essence of the Jewish Holidays & Days of Remembrance” do Rabino Adin Steinsaltz.

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