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Marcos Weiss Bliacheris

Toda pessoa tem um nome

26.08.2016

– Qual seu nome?

– Como você se chama?

– Tão lindo o bebê, qual o nome dele?

Uma das primeiras perguntas (se não a primeira) que fazemos quando conhecemos alguém é o seu  nome. Nomes são identidade, dizem quem somos, de onde viemos. Permitem presumir gênero, nacionalidade, etnia, classe social. Mohamed, muçulmano; Severina, nordestina; Jesus, cristão; Ribamar, maranhense. John Smith é tão americano como Cohen é judaico como Silva é brasileiro. Fritz e Frida, alemães.

O povo judeu dá muita importância aos nomes. Nomear é um ato importante e cheio de significados. Dá-se o nome de um menino no brit milá (cerimônia da circuncisão), comemorando sua entrada no povo judeu. O nome de uma menina é dado junto à Torá.

Quando não querem falar um dos nomes de D-us em vão, no cotidiano, judeus O chamam de “O Nome” (Hashem). Diz-se que a primeira pergunta que será feita quando, ao falecer, se chegar ao Outro Mundo é “qual o seu nome”.

Adão, no Jardim do Éden, tem como sua primeira tarefa a cumprir, dada por D-us,  dar nome às criaturas divinas “e o homem deu nomes a todo animal, a toda ave dos céus e todo animal do campo.” (Gênesis, 2:20).

O Livro do Êxodo, que conta todo o drama da escravidão e libertação do Egito, o momento fundador do povo judeu, chama-se em hebraico Shemót, “nomes” pois começa com a frase “e estes são os nomes dos filhos de Israel”que vieram ao Egito com Jacob (Êxodo 1:1). Aliás, o Talmud lista a manutenção, pelo povo judeu, dos nomes hebraicos como um dos três motivos pelos quais os judeus mereceram a libertação da escravidão.

Segundo uma passagem talmúdica, há três nomes pelos quais a pessoa é chamada. Um pelo qual seu pai e sua mãe chamam, outro pelo qual as pessoas a chamam e um que ela conquista para si mesma. O Talmud nos mostra que há um nome herdado mas há também um nome construído.

A partir deste trecho do Talmud, a poetisa israelense Zelda escreveu um poema, muito conhecido em Israel:

                Cada Homem tem um nome

                Dado a ele por Deus

                E dado a ele por seu pai e sua mãe

                Dado a ele por seu jeito de andar

                E dado a ele por sua roupa (…)

                Cada homem tem um nome

                E dado a ele por seus pecados

                E dado a ele por seus anseios (…)

                Cada homem tem um nome

                Dado a ele pelo mar

                E dado a ele por sua morte.

 

O poema, musicado, faz parte das datas de luto em Israel. Já estive em muitos atos lembrando os assassinados no Holocausto no Iom Hashoá (Dia da Recordação dos mortos pelos nazistas na II Guerra). Um dos momentos mais tocantes é quando as pessoas recordam os nomes daqueles que pereceram. Seja em uma grandiosa cerimônia oficial, seja em uma cerimônia mais íntima. Seja o primeiro ministro, seja uma pessoa comum. O momento em que uma pessoa diz o nome de um familiar perdido, de seu avô, é o momento que os seis milhões de mortos, número quase incompreensível de tão absurdo, passam a ganhar um rosto. Lembra-se, assim a sua vida, reafirma-se sua existência, que a morte física não foi capaz de apagar.

Não lembrar o nome destas pessoas seria uma segunda morte. E é exatamente contra isso que estão protestando grupos de pessoas com deficiência no Japão. O país oriental, conhecido por sua baixa criminalidade, teve seu pior assassinato em massa das últimas décadas quando um centro residencial para pessoas com deficiência foi invadido e 19 pessoas foram mortas com um número maior de feridos no dia 16 de julho na localidade de Sagamihara.

O assassino, segundo suas palavras, ao esfaquear dezenas de deficientes e não atingir ninguém da equipe do centro, afirmava praticar a eutanásia que julgava que as pessoas com deficiência mereciam.  Eutanásia ou morte piedosa, julgava monstruosamente fazer um favor às pessoas que esfaqueou. Como disse: “é melhor que os deficientes desapareçam”.

O assassino inspirou-se na eugenia, pseudo-ciência que busca o “aperfeiçoamento da raça humana” visando a busca do ser humano perfeito – um mundo em que não há lugar para pessoas com deficiência. E, como concluíram os nazistas que tinham  o pensamento eugênico na base de seu pensamento, isso se estendia a judeus e ciganos.

Desde o massacre, a imprensa e as autoridades japonesas não divulgaram o nome das vítimas deste crime de ódio. Só sabemos o nome do assassino.

Enquanto os responsáveis dizem respeitar a vontade das famílias e as próprias famílias parecem haver pedido isso por uma assustadora razão: a vergonha que representa ter uma pessoa com deficiência na família.

A sociedade japonesa está cedendo a um capacitismo atroz. O capacitismo, termo recentemente popularizado, é o preconceito contra pessoas com deficiência. Caracteriza-se pela crença de que uma vida vivida com deficiência vale menos que uma vida comum. Podemos incluir nele tanto as ações de negar acesso aos ambientes, seja por barreiras arquitetônicas (p.ex.: falta de rampa de acesso) ou comportamentais (ao instituir ambientes em que pessoas com deficiências são recusadas ou desencorajadas a freqüentar, na maioria das vezes, para “sua própria proteção”). Também se expressa pelo tratamento de pena, inferioridade, ao ver a deficiência como uma tragédia e não uma expressão da diversidade humana.

O capacitismo, neste caso, impede que as vítimas sejam vistas como humanos como quaisquer outros, como merecedores de um nome e uma lembrança pela vida que foram. Como tantas outras expressões do preconceito contra as pessoas com deficiência, esta também se esconde sob uma capa de benignidade (na proteção à privacidade) para esconder um preconceito atroz.

Mas, como diz a poetisa, cada Homem tem um nome. Que este triste caso nos lembre disso e de não deixarmos que se esqueçam os nomes de ninguém, seja das vítimas da Shoá, seja dos 19 mortos de Sagamihara.               

O poema de Zelda no original hebraico.

O poema de Zelda no original hebraico.

 

A tradução do poema de Zelda foi retirada do livro "Os judeus e as palavras" de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger.

A tradução do poema de Zelda foi retirada do livro “Os judeus e as palavras” de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger.

 

Cerimônia de Iom Hashoá com o tema "toda pessoa tem um nome" com a presença do Presidente de Israel..

Cerimônia de Iom Hashoá com o tema “toda pessoa tem um nome” com a presença do Presidente de Israel.

 

1 Comentário a Toda pessoa tem um nome

  1. 28 de agosto de 2016 at 14:44 | Permalink

    Marcos, parabéns pelo artigo. Muito sensívell e bem escrito. O judaísmo tem valores maravilhosos que colocas e sabes preservar!

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