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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Taly e Beny

19.04.2017

Taly e Beny,

Choveu hoje cedo e acordei durante a madrugada pensando se os levaria para a escola. Se iria tirá-los debaixo do cobertor com o corpo ainda quente e a cabeça tentando abandonar os sonhos. Mas a razão venceu meu instinto de acalentar e dei bom dia baixinho, enquanto oferecia o leite morno que já estava na mesa de cabeceira. Vocês reclamaram, levantando uma série de motivos bobos para detestarem a escola que os acolhe desde que ainda usavam fraldas e onde têm tantos amigos. Respondi o de sempre, que precisamos estudar para termos autonomia de sermos quem quisermos na vida. E afinal de contas, eu também odeio quase tudo às seis da manhã.

Hoje vocês estão em dúvida se serão veterinários, donos de supermercado ou super-heróis, mas ainda se assustam com todas as séries escolares que se estendem ao que parece ser o infinito. Você fez tudo isso, mãe? Fiz sim e acreditem, o infinito chegou voando.

Descongelei frango para o jantar e ainda tive tempo de bater um bolo de cenoura para recebê-los no final da tarde, antes de sentar em frente ao computador e trabalhar. Um dia contarei para vocês quantas vezes reinventei meu trabalho e o pai de vocês dirá que ele, por outro lado, ama incondicionalmente a profissão que escolheu por vocação, embora eu acredite que vocês já saibam de tudo isso. Depois, entre goles de chá ou café ou chimarrão, vocês nos contarão sobre as últimas descobertas do caminho que escolheram.

Por hora, fico ansiosa pelo momento de abraçá-los no final da tarde, de pedir onze vezes para entrarem no banho e de insistir para comerem qualquer coisa verde durante o jantar. De entrar embaixo do cobertor com vocês no início da noite e acabar de assistir à primeira versão da Fantastica Fábrica de Chocolate, infinitamente melhor que a refilmagem, repetindo que eu amava este filme, cuja fita meu avô gravou para mim. E vocês ficarão felizes e eu olharei os dois pares de olhos que dão sentido à minha vida sabendo que sentirei saudades disso tudo quando o infinito chegar.

Mas agora leiam com atenção, amores. Não foi somente o estudo que nos fez sermos quem escolhemos. Muito antes de eu mesma reclamar ao acordar cedo para ir à escola, seus avós o fizeram. Antes deles, tiveram seus bisavós. E é sobre eles que vocês precisam saber.

Os filmes de fantasia, o leite na cabeceira, a profissão e nossos sonhos só existem porque eles, proibidos de sonhar, sobreviveram. E quando o fizeram, garantiram nosso direito de existir. Quando não abandonaram sua identidade, garantiram nosso direito de ser. E quando nasceu o Estado de Israel, garantiram nosso direito de sonhar.

Por isso, sonhem. Muito. Alto. Voem. Mas nunca se esqueçam:
Somos judeus com todo nosso coração.
Vocês são descendentes de heróis.
Contem para seus filhos.
Lutem por Israel.
E sejam quem quiserem.

Hoje, nós podemos.

Amo vocês,
Mamãe.

*No próximo dia 24, segunda-feira será o Dia da Memória do Holocausto em Israel. Lembrar para que nunca se repita.

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