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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Sobre tatuagens e judaísmo

30.06.2016

A flor nurit cresce selvagem em Israel, enfrentando a seca que mataria a maioria das outras espécies. E por termos tanto em comum além do nome, decidi tatuá-la em meu corpo.

Assim, escrevo este texto para fazer uma pergunta.

Sou filha de pais judeus, neta de sobreviventes de guerra. Cresci em lar judeu, estudei em colégio judaico e sou mãe de duas crianças educadas dentro do judaísmo. Quer ver meus olhos brilharem? Elogie-os, fique interessado em meu trabalho ou pergunte se sou judia.

Uma rápida pesquisa e descobrirá que, louca por palavras, um dos temas recorrentes em meus textos é o judaísmo. Talvez você já tenha até lido alguns.

Sou azul, branca, verde e amarela. Celebro Rosh Hashana e reveillon. Pratos preferidos? Bureka e pão de queijo. ‘Ouviram do Ipiranga’ e ‘Hatikva’ me levam às lágrimas. Sei sambar e dançar Hora. Vibro com Toquinho, Vinícius, Yehudit Ravitz e Noa.
Canto com meus filhos as músicas em hebraico da minha infância. Casei debaixo da chupá. Meu nome, além de Nurit, é Beah Shoshana, em homenagem às minhas bisavós. Meu caçula, em seu Brit Milá, vestiu a mesma roupa usada por meu pai há sessenta anos na mesma cerimônia. Às sextas-feiras, minha casa é iluminada pelas velas do Shabat. Não canso de repetir o que meus antepassados enfrentaram para que eu pudesse estar aqui, viva e livre.

Mas se me conhecer bem, saberá que como carne de porco e não vejo sentido na cashrut. Minha geladeira tem sempre bacon para temperar feijão e adoro pizza com presunto. Frequento raramente a sinagoga, não sei mais que cinco rezas, uso celular aos sábados. E decidi marcar meu corpo.

Tem quem por isso me considere menos judia.

Talvez seja difícil entender, mas meu judaísmo tem pouco a ver com religião. Acredito em pertencimento. Sou entusiasta da tradição. Le dor va dor – de geração em geração – e transmitirei a cultura da qual me orgulho. Sou filha de ventre judeu mas o judaísmo, estampado em minha alma, é uma escolha. E sou eu quem define seus limites.

No começo do texto, anunciei uma pergunta.

Mas desisti.

Eu sei quem sou.

E para a maioria das perguntas, a única resposta que importa é a nossa.

4 Comentários a Sobre tatuagens e judaísmo

  1. Guilherme Fauque's Gravatar Guilherme Fauque
    7 de julho de 2016 at 00:58 | Permalink

    Nossa… expôs perfeitamente o que eu e, aposto, muitos outros pensam. Obrigado por escrever estas palavras.

  2. Israel Abrahão Tvorecki's Gravatar Israel Abrahão Tvorecki
    7 de julho de 2016 at 01:04 | Permalink

    Cara sra Nurit
    Sou Israel.
    Exerço o cargo de Gabai, diretor religioso do Linat, nossa família é observante. Isto é, ortodoxa.
    Saudamos suas palavras, e ressaltamos que a Torá transmite tolerância, aceitação, amor incondicional. Não entendemos em que alguém não pensar ou agir como a gente o tornaria menos judia. Ou menos humana.
    Aliás, em que não ser judeu mudaria o carinho e propósito do Criador em trazer alguém ao mundo?
    Não desista de aprender, buscar as alternativas.
    Judaísmo se pratica quando, antes de respostas prontas, nos damos conta que, mais vale saber fazer a pergunta. Dê no que vai dar
    E parece que, nisso, brilhas em teu Judaísmo. Jamais o sufoquemos com respostas apressadas. Porco, tatuagem, Shabat… mais que respostas prontas… são ótimas perguntas…
    Shalom
    Israel

  3. Andrea's Gravatar Andrea
    12 de novembro de 2018 at 18:57 | Permalink

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