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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Opiniões pessoais e verdades absolutas

07.10.2016

“Este é o começo doloroso e persistente da nova etapa de minha vida. Que se inicia ali, um pouco adiante, no ponto final deste prólogo. Depois trato de purificar a memória em invenção. Mas só depois daquele ponto final. Porque meu ofício é exclusivamente escrever – o que significa erro em cima de erro –, há um livro a ser escrito. Usar-me como ficção: aí está a única forma de saber o que foi, porque preciso saber o que foi para o novo começo”.*

Começa assim, primeiro parágrafo do prólogo. E com ele, a certeza de que será impossível parar até saciar. A Cíntia faz isso comigo. Com que Clara, Ana, Hersh, Yacov, mães, pais, avós, aromas e memórias sejam quase palpáveis. Faz com que a escadaria do colégio que frequento diariamente ganhe novos – e delicados – tons. Presenteia minha vivência recente nesta cidade com passado. Nunca mais consegui enxergar o Bom Fim sem as histórias da Cíntia. E hoje, elas misturam-se às minhas.

Nosso contato, na realidade, é somente digital. O mais próximo que cheguei de conhecê-la pessoalmente foi num cruzamento da Protásio Alves em que ela esperava a vez de atravessar enquanto eu seguia de carro. Pensei em abrir o vidro, acenar, gritar e declarar minha admiração. Falar sobre o quanto sou por vezes Clara e tantas outras, a avó magra. Sobre o sumo sanguinolento, o beigalesh, o mondale, a casa da rua Auxiliadora ou a mesa de refeições na cozinha. Mas controlo bem os limites de minha loucura. Não se grita um prólogo no meio da avenida.

Tenho uma queda por livros onde há verdade depois do travessão. Seja sua presença escancarada ou uma simples desconfiança, sentir o autor ali enquanto eu, voyeur da realidade alheia, mergulho em cada página, me seduz. Escritores estão sempre um tantinho nos personagens, é bem verdade, mas são raras e absolutamente valiosas as leituras onde que há apetite, identificação e troca.

Eu torci por tudo isso. Torci porque a Cíntia Moscovich me leva às gargalhadas, às lágrimas, é uma das autoras que me tocam profundamente mas além disso, torci porque ela é uma das grandes escritoras brasileiras contemporâneas. E isso, diferente de todas as palavras que despejei acima, está longe de ser somente uma opinião pessoal.

Viva a Cíntia, patrona da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre!

 

*Prologo de “Por que sou gorda, mamãe”

(Fonte da foto: correiodopovo.com.br)

2 Comentários a Opiniões pessoais e verdades absolutas

  1. Carmen Silveira's Gravatar Carmen Silveira
    7 de outubro de 2016 at 23:45 | Permalink

    Feliz de ti, querida, que consegue escrever belezas sobre essas nossas belezas.
    Amo a Cintia, adoro seus livros e ela é uma querida.

  2. Valdiria's Gravatar Valdiria
    8 de outubro de 2016 at 09:12 | Permalink

    Saudade da Cintia, tive a alegria de ser sua colega na PUCRS. Do seu sorriso largo e vermelho abrindo as portas das Letras.
    Para nós colegas, que tivemos esse convívio, é um orgulho lembrar de sua generosidade, de seu pensamento claro, de sua gargalhada. Nossa colega escritora talentosa.

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