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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Sobre viver em uma pequena comunidade

06.12.2016

Ela era reservada. Desde que chegara à cidade, prezava por sua individualidade. Saia para um happy-hour ou outro, confraternizava com o pessoal do escritório, conversava com as colegas do pilates, mas não abria mão de um sábado com os pés para cima e de curar seus resfriados com silêncio e sopa de saquinho. Suas decisões relevantes eram tomadas com base em pesquisas – do Google a trabalhos acadêmicos – e assim, ela decidia os rumos de sua alimentação, carreira, estudos, além de cogitar fortemente a possibilidade de comprar um gato. Para curar a solidão.

Ela era reservada. Desde que chegara à cidade, prezava por sua individualidade. Até que, no segundo dia, a vizinha bateu à porta e sem qualquer delonga, entrou colocando o perfumado bolo de mel sobre a mesa de refeições. Para dar as boas-vindas. Era Ana. Seu marido, Milton, logo chegaria do trabalho. Será que ela não gostaria de jantar com eles? Aliás, está precisando de algo? Esta época do ano costuma esfriar à noite. De onde você veio, querida? E por que? Ana lhe apresentou Cristina, Renata, Carla e Michelle. Coincidentemente, a primeira fazia pilates na mesma academia que ela, a segunda era filha de uma prima de seus pais, a terceira insistiu para que fizessem juntas o curso de risotos aos domingos e a quarta, virou amiga de confidências. Além de preparar um chá de gengibre que curava qualquer resfriado. As decisões passaram a ser tomadas em equipe, em encontros regados a doses etílicas e opiniões. É bem verdade que já não podia falar qualquer coisa que não reverberasse aos quatro cantos, tomando proporções certas vezes exageradas. Então, ela se isolava, pensava no gato, na sopa de saquinho e no silêncio.
Até que tocava a campainha.
Era Ana.
E o cheiro do bolo era inebriante.

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