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Leniza Kautz Menda

Sholem Aleichem: o Escritor do Povo Judeu

19.09.2016

No dia 13 de maio deste ano ocorreu o centenário de morte do famoso escritor Solomon Rabinovitch, mundialmente conhecido como Scholem Aleichem. Vale a pena lembrar um pouco de sua vida e das características de sua literatura em língua iídiche.

Scholem Aleichem nasceu em 02 de março de 1859, em Pereislav, pequena cidade na província de Poltava, na Ucrânia, e faleceu em Nova Iorque, em 13 de maio de 1916. Mudou-se para os Estados Unidos logo após o pogrom de 1905 na Rússia.

Scholem Aleichem, pseudônimo literário de Solomon Rabinovitch, é uma fórmula litúrgica usada no culto da sinagoga e significa em hebraico, “A Paz Esteja Convosco”. Esta frase penetrou no uso lingüístico da vida cotidiana dos judeus da Europa Oriental os quais falavam o iídiche.

Se nos reportarmos a sua infância, veremos que ele vivia no schteitel, ou seja, numa pequena e fechada comunidade judaica, um microcosmo completo com tipos representativos dos ideais e dos valores da comunidade judaica: o rabino (líder espiritual e religioso); o chazan (cantor litúrgico); o choichet (açougueiro ritual); o melamed (mestre-escola) e o chadken (casamenteiro). Cada um deles representava o depositário de certos valores que lhes eram delegados pelos judeus daquele microcosmo.

Entre algumas de suas obras publicadas encontramos duas novelas: Teive, o Leiteiro e Mazel Tov. Inúmeros contos saem da pena desse sensível escritor, entre os quais: Rabtchik (uma história de um cão), A Cidade de Kasrílevke, O Alfaiate Encantado, Dreyfus em Kasrílevke ,Se eu fosse Rotschild e Cartas de Menahem-Mêndel.

No epitáfio que Scholem Aleichem redigiu para ser gravado em seu túmulo talvez se encontre uma definição para o seu temperamento, os seus objetivos e a sua arte literária:

“Aqui jaz um judeu comum

Que escreveu, isto é verdade, apenas em iídiche,

E para as mulheres e para a gente comum.

Era humorista, era autor

Que zombava de tudo. Apanhou muito na vida,

Mas seu público riu e bateu palmas, E só Deus sabe como ele sofreu.”

Como diz Henri Slóves, “O amor ao povo é inseparável ao amor à língua de seu povo- a língua-materna ou mame-luschen”.

As expressões empregadas nesse epitáfio – o judeu comum, o iídiche, o escrever para o povo, o humor, traduzem bem as intenções literárias do próprio autor. Na medida em que ele descreve o judeu comum, ele se insere numa concepção literária de cunho realista. Ao contemplar os diversos tipos de judeus pertencentes ao vilarejo, ele só poderia rir de suas fraquezas e mudanças de humor, demonstrando uma empatia em relação a seus infortúnios. Seu humor é suave e melancólico, distanciando-se do humor negro ou humor palhaçada. Não nos rimos dos personagens, mas de nós mesmos através de suas atitudes. É um humor que serve como uma espécie de autodefesa e de enaltecimento de algumas das qualidades inerentes aos judeus das pequenas aldeiazinhas judaicas.

Vejamos um exemplo do humor presente no conto “Gymnasia”. “Pouco depois se aproxima de nós um indivíduo com botões dourados, um professor do ginásio, parece, e com uma folha de papel na mão, e me pergunta: “O que deseja? “Aponto-lhe para o meu filho, explicando-lhe que vim trazê-lo ao cheder, isto é, ao ginásio. Aí ele me pergunta: “De que série?” Eu lhe digo: “Terceira. Não faz muito que ele foi admitido.” Ele me pergunta:” Como é o nome dele? Eu digo: “ Katz, Moishe Katz, quer dizer, Moschke Katz”.Diz ele: “Moschke Katz? Não há nenhum Moshcke Katz no terceiro ano. Há na lista, diz ele, um Katz, mas não Moshcke, porém Morduch Katz…” Eu lhe digo: “ Kakoi Morduch? Qual Morduch? Moschke e não Morduch! Ele me responde: “ Morduch” e me enfia o papel na cara. E eu para ele: Moshchke! E ele para mim: Morduch! Em suma, Moshke – Morduch, Morduch – Moshke, “moschkamos “ e “morduchamos” tanto que acabamos sabendo de uma bela história: o que devia pertencer ao meu, era de outro. Está compreendendo que mixórdia? Houve um engano… Um Katz foi realmente admitido, sem dúvida! Mas, por engano, um outro e não o meu filho. Existem, o senhor me compreende, dois Katz em nossa cidade!…”.

Em Scholem Aleichem encontramos um exemplo vivo de metalinguagem onde há uma definição de sua própria arte literária. Num dos contos, intitulado Scholem Aleichem!, há um diálogo entre o próprio autor e um representante de um Jornal Popular Judeu (Iídiche Folkstzeitung) no qual se acham presentes os principais ingredientes da obra desse escritor: o porquê do ato de escrever, o alvo a que se dirige os seus escritos e a intenção de ser lido, o que constitui o sistema literário: Autor- Obra-Público.

Cumpre-nos indagar a respeito da universalidade e atemporalidade da obra de Scholem Aleichem. Será que as características dos habitantes do schteitels perduram até hoje? Em que medida privilegiamos certos valores em detrimento de outros, tais como a fé, a esperança, a caridade, a hospitalidade, o senso de justiça, a educação e o amor ao estudo, tão arraigados à visão de mundo daquelas pequenas aldeiazinhas? É claro que Scholem Aleichem nos fala de um mundo distante e, infelizmente, de um mundo que desapareceu juntamente com muitos dos valores nele inseridos. Não deixemos, entretanto, que os valores morais e éticos que pautaram a vida desses nossos antepassados desapareçam ao longo das gerações vindouras. Lutemos para manter viva a herança de Scholem Aleichem!

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