Blogs

Marcos Weiss Bliacheris

Shimon Peres: shalom ve bitachon (paz e segurança)

17.10.2016

Se você pesquisar os slogans e propagandas eleitorais israelenses irá se deparar com duas palavras onipresentes: SHALOM  e BITACHON, paz e segurança. Sob as mais variadas formas, convivem nos cartazes de todo espectro político. Esta combinação foi já lema de campanha de Shimon Peres, falecido há poucos dias aos 93 anos, mas poderiam ser o resumo de sua vida.

Os primeiros anos de vida pública de Shimon Peres foram passados sob o signo da BITACHON. O discípulo de Ben Gurion era o diretor do Ministério da Defesa antes de completar 30 anos. Nos anos 50, costurou a aliança militar com a França  e esteve à frente do esforço de equipar as forças de Israel diante da escalada militar provocada pela ascensão de Nasser no Egito e da construção de Dimona, o reator nuclear israelense.

Mesmo sem ter uma carreira militar, o imigrante polonês que fundou kibutzim, esteve entre os líderes que tornaram as FDI (Forças de Defesa de Israel)  um dos principais exércitos do mundo e da criação de uma Força Aérea que se mostrou decisiva para a sobrevivência do Estado Judeu.

Peres esteve presente em praticamente todos os momentos importantes de Israel desde sua criação. Estava na mesa que decidiu pelo resgate em Entebbe. Quando Israel acabou com a hiper inflação, ao tempo dos planos cruzado e austral aqui e na Argentina (ambos inspirados no sucesso israelense), Peres foi a cara da mudança, para “vender”o plano para a poderosa central sindical Histadrut e impedir que  greves e protestos paralisassem a economia israelense.

Peres, a partir dos anos 90, esteve associado à palavra SHALOM. Esteve no gabinete que decidiu pela retirada de tropas israelenses do sul do Líbano e foi o condutor do processo de paz de Oslo. Enfrentou oposição pesada que culminou no assassinato de Rabin. Vi o então Chanceler em um programa de auditório. Só pensava em que isso seria impossível no Brasil, em que políticos falam para claques arregimentadas entre fiéis seguidores. Peres debateu com pais de vítimas de atentados terroristas em um programa do horário nobre de shabat na televisão israelense. Visivelmente acuado pelo teor emocional da conversa, respondeu a todos com dignidade e dificuldade.  Como disse em uma de suas frases célebres, “a televisão tornava impossível a ditadura e insuportável a democracia”.

O processo de paz com os palestinos e o Prêmio Nobel da Paz consolidaram sua imagem de SHALOM. Era a cara de Israel que buscava a paz. Assinou também um tratado de paz com a Jordânia, diversos países abriam representações diplomáticas em Israel. Nos ônibus que circulavam pelo país, uma propaganda de canetas dizia “o próximo acordo será assinado com” e promovia  a marca de canetas do anúncio.

Mestre dos bastidores e da vida partidária, foi um perdedor em eleições. Perdeu eleições dadas como ganhas, empatou aquelas em que era absoluto favorito. Foi o primeiro líder trabalhista a perder uma eleição. A última eleição perdida foi para Moshé Katzav, um até então obscuro político israelense para presidente de Israel. Após o fracasso desta presidência (Katzav está na cadeia até hoje), Peres ganhou fácil a sua derradeira eleição – para presidente de Israel.

Um cargo decorativo mas nas mãos de um político tão tarimbado, ganhou peso extra. E Peres, o remanescente da geração dos fundadores, mais que respeitado passou a ser amado. Ganhou contorno de figura paterna e de avô (saba) para muitos israelenses.  Projetou-se como a imagem de Israel no exterior no lugar do Chanceler Liberman.

Após despedir-se do cargo, seguiu seu trabalho em sua Fundação, de apoio a projetos de paz entre israelenses e palestinos.

Sua trajetória singular, reflete uma personalidade marcante e única.

Peres, descendente direto do talmudista Rabbi Chaim Volozhiner, não era religioso, mas sempre demonstrou respeito às correntes religiosas do Judaísmo. Quando pequeno, já em Israel, fugia de casa para estudar Guemará com um rabino e atribuía sua longa vida a uma brachá (benção) recebida do importante rabino Chafetz Chaim. Questionado sobre as dificuldades de laicos e religiosos, falou de forma lapidar que “judeus não mudam o rabino, judeus mudam de rabino.”

Sempre deixou claro seu amor pelos livros e pela leitura, orgulhava-se de ler diariamente. Gostava muito de Paulo Coelho (ninguém é perfeito). E na melhor tradição israelense, como Presidente recebia escritores, artistas e cientistas.

Professava grande esperança na tecnologia. Foi um dos idealizadores da Start Up Nation.  Dizia que Israel não possuía recursos naturais mas mentes criativas e inovadoras.

Valorizava a questão ambiental, falava que “nós devemos cuidar da natureza assim como a natureza cuida de nós. A natureza é muito gentil conosco. E se você quer aproveitar os presentes e as promessas da natureza deve deferência a ela,  a suas necessidades e suas regras”.

Tido como um sonhador, defendia que para ele ser pragmático é sonhar. E acrescentava que “você é jovem como seus sonhos, não velho como sua idade.”

Acreditava no poder da imaginação e dizia, em uma região em que o passado volta e meia tenta engolir o futuro que deveríamos usar mais a imaginação e menos a memória.

Amén, Shimon Peres. Que a imaginação nos leve para o futuro que você sonhou e tentou nos legar, com um Oriente Médio em paz, economicamente pujante e que a todos seja permitido sonhar.

 

 

 

 

 

 

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Marcos Weiss Bliacheris

Inclusão se aprende em comunidade

06.08.2018

A inclusão se aprende na prática, vivendo. Ninguém aprende a incluir somente nos livros. Existe a teoria, mas nada...

O LADO JUDAICO DO SUPER BOWL LII

03.02.2018

Neste domingo, 04 de fevereiro, será jogada a 52ª. edição do Super Bowl que coloca em campo o New...

Extraordinário

27.12.2017

Está em cartaz nos cinemas o filme “Extraordinário”, baseado no livro homônimo. Estrelado por Owen Willians e Julia Roberts,...

Chalá redonda

20.09.2017

Rosh Hashaná é uma festa cheia de símbolos mas um que me fascina é a chalá agulá. Esta foi...

Ano Novo das Árvores

10.02.2017

No próximo dia 11 de fevereiro , no dia 15 do mês de Shvat do calendário hebraico, comemoramos o...