Blogs

Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Seu Duvivier

07.09.2016

Li arrebatada seu livro “Put some farofa”, entusiasta da crônica que sou. A apresentação do Brasil ao gringo que nos visitaria na Copa foi genial. Não poderia imaginar que, além de ator, você organizava tão bem as ideias no papel. Humor com uma vertente crítica. Perspicaz. Criativo. Virei fã.

Então o Brasil entrou neste furacão polarizado e percebi nossas ideias tão díspares. Levantamos bandeiras diferentes. Mas até aí, acredito que debates embasados em bons argumentos são enriquecedores. Se não há verdade absoluta – nem a minha, nem a sua – que possamos ouvir, mesmo que sem necessariamente concordar, outras ideias.

Existia respeito.

Até ontem.

De repente, virou praxe comparar o Brasil à Alemanha nazista. A ex-presidente (enquanto ainda presidente), a vereadora Ariane Leitão e agora, veja só, você.

Deixa-me esclarecer algo que certamente já sabe. Os judeus viviam, muito antes da ascensão do partido nazista ao poder, uma situação oprimida na Europa. No leste, sofriam com pogroms e eram considerados cidadãos de segunda classe. Do lado ocidental, apesar da contribuição que deram à sociedade moderna, percebiam um barril de pólvora prestes a explodir. Passaram a sofrer com o preconceito econômico de “donos do mundo” e com outro ainda mais odioso, o racial. Na Alemanha devastada economicamente, um político populista escolhe um bode expiatório para a moral perdida na Primeira Guerra. Os judeus passam a perder seus direitos civis, políticos e legais. Tiveram restritos todos os aspectos de sua vida público e privada. A chamada sociedade ariana ganha força. As Leis de Nuremberg deixavam claro, inclusive, que judeus não poderiam casar ou manter relações sexuais com “alemães ou alguém de sangue alemão”. Nos anos seguintes, sofreram um genocídio. Morreram em câmaras de gás, em campos de trabalho forçado, congelados na Sibéria e de outras maneiras tão cruéis que não teria coragem de digitar.

O incêndio do Reichstag não consolidou a Alemanha nazista. Foi apenas a desculpa que fez-se necessária para colocar em prática um plano doentio. E engenhosamente preparado através de propaganda nazista. Assim como a mentira contada mil vezes que torna-se verdade, fragmentos da história retirados do contexto e retrabalhados não são novidade alguma. Goebbels o fez com maestria. Você também deve saber.

Comparar o apelo feito pelo jornal onde é colunista para “repressão aos grupelhos” com o ocorrido em 1933? Palmas. Ficou absolutamente convincente. Tive amigos compartilhando seu texto. Mas foi doentio. O contexto dos judeus na Europa de 30 em nada assemelha-se ao dos defensores da esquerda no Brasil ou na America Latina.

Manipular fatos fora de contexto foi o que consolidou o Estado de exceção nazista. E imitar Goebbels num jornal de grande circulação é irresponsabilidade.

Depois, não adiantará colocar uma tonelada de farofa.

1 Comentário a Seu Duvivier

  1. Sergio Tenenbaum's Gravatar Sergio Tenenbaum
    10 de setembro de 2016 at 13:08 | Permalink

    Ainda fico surpreso e agradecido com as pessoas que tem paciencia de “explicar” essas coisas . . . esse idiota só está repetindo clichês . . .

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Nurit Masijah Gil

Vivendo em Israel: Ulpan e inspiração

30.01.2018

Primeira história: Ela tinha as portas dos armários forradas de poesia porque queria saber declamar de cor – talvez...

Jerusalém, capital de Israel

08.12.2017

No dia em que EUA reconheceu oficialmente Jerusalém como capital de Israel… O despertador tocou cedo. Lá fora, o...

Perfumando a memória

24.10.2017

Sou brasileira apesar deste país tropical ter estampado a capa do passaporte de poucas gerações da família. Como qualquer...

Viver Israel

12.09.2017

A escolha deste país pode parecer fazer todo o sentido. Claro que faz. Mas ela habita muito além do...

Taly e Beny

19.04.2017

Taly e Beny, Choveu hoje cedo e acordei durante a madrugada pensando se os levaria para a escola. Se...