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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Sabor de Memória

17.07.2016

“Já diziam nossos antepassados que domingo haveria batatas; segunda, batatas; terça, batatas; quarta, batatas; quinta, batatas; sexta, batatas; e sábado, um tchulent com batatas. Nós aprendemos a fazer maravilhas com a escassez. O latkes, bolinho de batatas, é uma das iguarias mais apreciadas nas delicatessens judaicas. A salada de fígado com ovos e, claro, oy, oy, oy, o guefilte fish. Tudo preparado com o delicioso schmaltz, a banha de galinha, para dar um gosto especial, o verdadeiro sabor judaico e…

Que? Lo verdadeiro sabor das comidas djudias son los condimentos. Tudo com lo mejor tahine sem faltar berinjela, cominho e canela. Burekas, taboule e arroz com fideos. Kon salud ke lo uses i gozes“.

Escrevo sobre o ídiche e o guefilte fish, mas a verdade, é que sou sefaradi por descendência e coração. Meu judaísmo está intimamente ligado à minha avó paterna e na casa dela, o tempero é francês, grego e iuguslavo. Da minha infância fazem parte ditados e bênçãos ladinas e os cânticos da linda Sinagoga da Abolição, em São Paulo, adornada com seus vitrais coloridos.

Quando casei e mudei para Porto Alegre, onde a comunidade sefaradi é muito – muito, muito – pequena, passei a frequentar e me interar da cultura ashkenazi, que afinal, é também a origem do meu marido. Em meu primeiro Iom Kipur, não consegui acompanhar nenhuma reza. Os ritmos e o sotaque diferentes fazem com que, até hoje, eu tenha dificuldade em acompanhar mesmo as mais tradicionais.

E apesar de todos falarmos uma ou outra palavra em ídiche, meu ouvido está mesmo habituado ao ladino. A “pescaditos a la mar” mais que “iachne” e “mishigne“. Não só pelas músicas que minha avó cantarolava para nós, mas pela melhor benção que pode existir para proteção. Até hoje, quando estou com ela, os cravos já estão separados e segurando-os, ela fecha os olhos recitando as palavras que aprendeu com sua bisavó. E então, estou em casa.

Os cravos de cada descendente da família depois queimam no fogo e o cheiro espalha-se pela sala. É esta a memória olfativa do judaísmo para mim. Não é a chalá saindo do forno, a tainha sendo moída ou o leikech de Rosh Hashana. É cravo. E a música, ladina.

Foi também através das suas mãos que minha herança religiosa encontrou tempero. Judaísmo é judaísmo? Sim, claro. Mas jamais à mesa. “As receitas serafadim são muito mais saborosas”, minha avó insistia no que, para mim, já era óbvio. Bureka com melancia, arroz com amêndoas, finarão e bimuelos. Perfume de mel. Marzipã e drages servidos simbolizando a fartura.

“Os hábitos alimentares são como gens em cada família, de uma geração para outra. Por meio de pratos familiares, pode-se definir sua identidade geográfica e, nesse sentido, a cozinha judaica tem um sabor de memória” (Marcia Algranti no excelente “Cozinha Judaica – 5.000 anos de histórias).

Houve uma época em que casamentos entre sefaradim e ashkenazim eram considerados uma catástrofe. Graças à bem-vinda modernidade, hoje as diferenças restringem-se apenas aos detalhes. Oy, oy, oy, que me desculpem as batatas, o ídiche e a comunidade que me acolheu. Sou grata, também adoro latkes e ainda hei de me acostumar. Mas quando fecho os olhos e imagino tradição, há perfume de especiarias. Sou esposa e mãe de judeus ashkenazim, mas minha essência, é sefaradi.

E para os meus, a benção em ladino eu já sei de cor.

nu

1 Comentário a Sabor de Memória

  1. Rejane Isdra's Gravatar Rejane Isdra
    20 de julho de 2016 at 19:55 | Permalink

    Nurit, parabéns pelo texto. Tuas palavras me transportaram às minhas memórias com minha avó. Doces lembranças de sua rica e deliciosa culinária sefaradi. De suas encantadoras e mágicas bênçãos em ladino. Muito obrigada por me transportar nesta doce viagem . Tb sou casada com asquenazi e me identifiquei com tudo. Bjs

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