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Leniza Kautz Menda

Rindo do Trágico: o humor na literatura israelense contemporânea

03.11.2016

Segundo Amós Oz: “ Comédia e tragédia são duas janelas para ver a mesma realidade”. Um dia, elas se encontram e iniciam um diálogo:

Tragédia: Puxa! Sua vida é muito trágica. Você é um personagem árabe-israelense do livro de Sayed Kashua que deseja se integrar à sociedade israelense. Para essa assimilação, você, portanto, deve renunciar aos valores de seu grupo étnico e perder, em parte, a sua identidade. Você saiu de Tira, sua cidade natal, e se mudou para um internato judaico em Jerusalém onde foi aceito na condição de estrangeiro. Você sofre bullying e seus colegas riem de você, quando diz música “bob” ao invés de música “pop”. Eles riem quando você diz que vai se queixar ao diretor Binhas – ao invés de Pinhas. Eles zombam dos lençóis cor de rosa que sua mãe comprou especialmente para você. Você ri do quê?

Comédia: Apesar de todas as zombarias que fazem contra mim, um dia eu vou perder o sotaque e me integrar à sociedade israelense e usufruir de suas benesses como qualquer sabra. Você não vai me derrotar, pois é muito pessimista! Saia já daqui com seu baixo astral.

Tragédia: E você, motorista árabe? Seu nome é Sammy, um personagem da obra de David Grossman. Embora você tenha um nome israelense e trabalhe para uma família sabra há muitos anos, os guardas ainda o detém nas barreiras para inspecionar seus documentos e o chamam de árabe de merda. Como você encara esse tipo de atitude preconceituosa, apesar de fazer um trabalho digno e honesto?

Comédia: Ora, eu procuro elevar a minha autoestima. Às vezes, os israelenses dizem que um sou um árabe de merda e eu digo que eles podem estar jogando merda em mim, mas isso não faz de mim um árabe de merda. É preciso rir, senão a vida se torna amarga e cruel como você.

Tragédia: E você, Simona Dadon? Está rindo do quê? Você foi criada por Sara Shilo. Veio do Marrocos para Israel, ficou viúva com sete filhos. Seu marido era o Rei do Falafel, mas ele morreu repentinamente e você caiu na desgraça por minha culpa. Agora eu rio de você, pois você deseja morrer num ataque de Katiusha e nem se preocupa em deixar seus filhos abandonados à sorte. Sim, você é má, veio com o “mau olhado” e levou meu marido!

Comédia: Em parte você tem razão. No início de nossa imigração nós éramos discriminados; os sabras se referiam a nós como Mizrahim, ou seja, judeus de origem oriental, o que era uma expressão de cunho difamatório. Mais tarde, meu marido enriqueceu com a venda de falafel, todo mundo gostava daquela iguaria feita por ele visto que ele conhecia o gosto de todos os clientes. Ele era o Rei do Falafel e eu me considerava uma Rainha. Quando meu filho mais velho fez Bar Mitzvá nós lhe oferecemos uma festa de arromba e não poupamos nenhum centavo. Nós encomendamos os melhores pratos. Nem era frango, mas carne com quatro pratos de acompanhamento e dez tipos de saladas. Nós pagamos 300 shekels por pessoa. Todos os cheques -presentes dos convidados não cobririam nem um terço da festa! Ficamos muito felizes naquela ocasião.

Tragédia: Lucette, foi concebida por Ronit Matalon, uma grande escritora israelense. Você é uma imigrante egípcia que veio para Israel na década de 50 e mora, ainda, num barracão pré-fabricado doado pelo governo israelense. É uma trabalhadora braçal e sustenta a casa como faxineira. Em Israel, você passou a se chamar Levana, o que implicou a perda de suas raízes e o rebaixamento de sua autoestima. Aqui em Israel, graças a mim, você se tornou feia, fria, amarga e agressiva. Foi abandonada pelo marido que não queria viver em Israel como um judeu marginalizado pelos Ashkenazim. Está rindo do quê?

Comédia: Quando eu vivia no Egito, tinha uma vida de princesa, era linda como uma boneca. Aqui em Israel, apesar de todas as perdas, consegui, com meu árduo trabalho, sustentar meus três filhos. Nós também nos divertíamos bastante. Nossos barracões eram padronizados, e as pessoas, ao voltarem para casa, se perdiam e batiam em casas estranhas. Meu ex-marido, Maurice, teve uma ideia brilhante. Ele sugeriu que todos os chefes de família colocassem mastros em seus telhados e hasteassem neles uma anágua ou camisola pertencentes a suas esposas para que ninguém mais se perdesse. É preciso rir e nos posicionarmos de um modo mais condescendente diante das adversidades. Você nem sempre pode nos derrotar, sua…

Tragédia: E você, doutora Dolly, parece que quem a criou a transformou num monstro. Foi a autora Orly Castel Bloom, não? Você é formada pela Universidade de Katmandu. É uma pessoa sádica e cruel, pois encontrou um bebê num saco de lixo e resolveu adotá-lo como filho. Tornou-se a iídiche mamme extremamente zelosa, mas, por seus excessos de cuidados, aplicou em seu filho vacinas contra o tétano, coqueluche, difteria e uma pequena dose de quimioterapia para prevenir o câncer! Graças a mim, você é a crueldade em pessoa!

Comédia: Nego veementemente o que você está dizendo. Você é louca e não se dá conta de que eu queria somente proteger meu filho. Às vezes, eu abria as suas entranhas com um bisturi para examinar se todos os seus órgãos estavam no lugar. Sem querer, eu fiz uma coisa legal! Esculpi, com o bisturi, o mapa de Israel nas suas costas. À medida que ele crescia, eu ampliava as fronteiras. O meu querido estado de Israel aparece no filho que eu defendo, costuro e deformo. Como eu não posso ser feliz?

Tragédia: E você? Foi criada por Savyon Liebrecht, mas nem sequer possui um nome. Você é louca! Contratou empregados árabes dos territórios ditos ocupados e pediu que eles construíssem um “puxadinho” anexo a sua sala. O seu marido sabra estava ausente, e os árabes poderiam sequestrá-la com seu bebê. Um dia, eles entraram em seu banheiro e pediram para trocar de roupa. Naquela ocasião, você tremeu nas bases, pois pensou que eles estavam armando uma bomba. Como você pode fazer aquilo? Caso acontecesse algo com vocês, o seu marido iria se sentir culpado.

Comédia: Mas, apesar de você me desejar o mal, nada de grave aconteceu. Os operários árabes só estavam se arrumando para ir a um casamento em Tulkarem (aldeia árabe). Além disso, quando meu filho quase caiu do berço, ele o tomou em seus braços e entoou canções de ninar em árabe. Eu fiquei completamente enlevada com aquele gesto e descobri que ele também tinha um filho da mesma idade que o meu. Fiquei com pena dele, visto que não conseguiu se formar em Medicina, seu grande sonho, devido a sua precária situação econômica. Não é para ficar feliz, sua tragédia trágica? Saiba que houve uma empatia entre nós, o que é um sinal de sanidade mental. Saia já daqui, você só pensa em desgraça!

Tragédia: Acho que a família de vocês tem um parafuso a menos. Vocês andam de carro expostos a uma situação de perigo, pois, a qualquer momento, podem ser atingidos por foguetes Kassan. Keret, Shira e Lev, eu persigo vocês e vocês me desafiam. Por que brincam comigo?

Comédia: Quando os seus foguetes iminentes estão se aproximando de nós, fazemos uma brincadeira para espantar o medo de nosso filho Lev.

Tragédia: Nunca vi algo tão louco assim! Brincar com a própria sorte. Dar margem ao azar!

Comédia: Você é que pensa! Assim que as sirenes nos alertam sobre os ataques aéreos, seguimos as instruções do Comando da Frente Interna, saímos do carro e deitamos no acostamento. Lev, o nosso filho, se deita no meio de nós. Nós simulamos um jogo no qual eu sou uma fatia de pão, Lev é o pastrami, e meu marido é a outra fatia de pão. Dessa maneira, nosso filho fica protegido de suas garras vingadoras, senhora tragédia. Você não pode e não vai, de jeito nenhum, nos destruir!

Tragédia: Tzvi Provizor, você é um personagem de Amós Oz, mas é completamente dominado por mim. Você acorda de manhã bem cedinho para nos contar, no refeitório do Kibutz, todas as desgraças do mundo: os tremores de terra, os desastres de avião, os incêndios e as inundações. Você é solitário e amargo. Carrega ao ombro todas as aflições do mundo, a maioria infligida por mim. Você nem mudou quando conheceu a viúva Luna Blank, uma pessoa otimista por natureza.

Comédia: É, realmente, ela me alertou que eu tenho sobre meus ombros toda a aflição que há no mundo. Mas eu acho que não posso fechar os olhos para os aspectos cruéis da vida. Não consigo fazer nada para mudar! Realmente, sou uma pessoa trágica.

Comédia: Ora, ora! Vamos nos dar as mãos, pois sabemos que o humor nos ajuda a enfrentarmos os problemas e as adversidades de uma forma mais branda e natural. Afinal, somos dois lados de uma mesma moeda!

Tragédia: Acho que você tem razão. Pelo menos façamos uma pausa e tentemos ser a tragicomédia da literatura israelense contemporânea. Assim, poderemos rir do trágico!

 

Leniza Kautz Menda

Amanhã, dia 03 de novembro, às 19:00, estarei na Feira do Livro. Venham conhecer o livro “Rindo do Trágico” – o humor na literatura israelense contemporânea.

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