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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Primo Levi – Testemunho

02.12.2015

Primo Levi, nascido em Turim em 1919 e morto na mesma cidade em 1987,  prisioneiro no campo de Auschwitz é o autor de “Assim foi Auschwitz – Testemunhos 1945-1986, juntamente com Leonardo De Benedetti, seu conterrâneo e também prisioneiro no Holocausto.

Primo Levi, doutor em química, já está na lista dos notáveis que prestaram à história e à humanidade depoimentos e reflexões sobre o Holocausto e  a IIª Guerra Mundial através de É isto um homem? e A trégua, esse convertido em filme.

O novo livro da Companhia das Letras, 2015, reúne algumas peças mais precisas e contundentes sobre Auschwitz e fatos posteriores.

A organização da obra é fruto de Fabio Levi e Domenico Scarpa e nela estão reunidos, entre outros, o extraordinário Relatório sobre a organização higiênico-sanitária do campo de concentração para judeus de Monowitz (Auschwitz, Alta Silésia, 1945-1946), inúmeros artigos publicados no diário La Stampa, de Turim, conferências, cartas, depoimentos e inclusive os testemunhos prestados por ambos os autores no julgamento de Eichman e outros carrascos nazistas, mediante questionários escritos.

Benedetti era médico (vizinho de Levi em Turim) e foram feitos prisioneiros e libertados juntos. Cuidou das vítimas enfermas e várias vezes escapou da câmara de gás por sua qualificação profissional. Levi, por seu lado, foi prisioneiro no laboratório químico da I. G. Farben no campo de concentração, onde  os alemães produziam gasolina sintética.

Ao serem libertados pelos soviéticos em 27 de janeiro de 1945 (o tempo no campo durou um ano), foram conduzidos para Katowice, na Polônia, para tratamento, mas acabaram colaborando com o Exército Vermelho inclusive na atenção aos oficiais e soldados feridos de guerra.

Por suas capacidades profissionais, as autoridades soviéticas os encarregaram de produzir o referido Relatório sobre a situação – higiênico-sanitária dos prisioneiros.

É seguramente o primeiro documento de cunho científico e técnico sobre Auschwitz (do qual Monowitz, onde estavam os dois autores,  era um campo secundário para trabalhos forçados).

Embora Primo Levi afirme que logo após a libertação (que descreve rigorosamente em A trégua) estivesse jungido aos problemas emocionais e que somente décadas depois o liberariam para a consciência completa dos fatos do Holocausto e da IIª Guerra, o relato de ambos é completo, minucioso, detalhista e aborda múltiplos aspectos da degradação do ser humano, como corpo humano, mente e intelecto, a sua sujeição indigna à perda da identidade humana ao desumanismo.  Os que não sucumbiram imediatamente  nas câmaras de gás ou nos vagões de gado em que eram transportados, não deveriam resistir por mais de três meses, segundo indústria da morte nazista.

Da correspondência de Primo Levi e resultado de duas exposições e conferências sobre o Holocausto, os compiladores do livro  recolheram uma carta aberta encaminhada por uma jovem estudante através do jornal de Turim  La Stampa e pelo mesmo jornal respondido por Levi.

A jovem estudante narra que visitara em Turim com suas colegas de ginásio a exposição sobre os campos de concentração nazistas.

Depois da visita, diz ela, surgiram muitas discussões com suas colegas. “Há quem diga que é exagero e quem garanta que é tudo verdade”.

Embora os fatos sejam históricos, uma das colegas pergunta porque não há “sinal em nossos livros de história?”

Outras dizem: não querem que estudemos história “porque aconteceram coisas feias demais”.

A leitora e missivista diz-se assustada com o que viu na exposição e no final da carta relata a natureza terrível do seu drama pessoal:

“Eu, filha de um fascista,  fiquei assustada com o que vi e rezei a Deus que meu pai seja inocente desse massacre”.

Assinado: “A filha de um fascista que gostaria de saber a verdade.” (La Stampa, 29 de novembro de 1959).

No livro, segue-se a resposta de Primo Levi:

“Não, senhorita, não há como duvidar da verdade dessas imagens. Essas coisas realmente aconteceram e ocorreram assim: não séculos atrás, não em países remotos, mas há quinze anos, no coração desta nossa Europa”.

“Quem tem dúvidas pode tomar um trem e visitar o que resta desses tristes locais”.

Uma resposta tão simples quanto contundente. A permanente lógica e o distanciamento pedagógico de Levi. Respeita ele sobretudo a dúvida da jovem, e mais do que isso, respeita o fato de ela estar possuída do dilema dramático de ser filha de um fascista italiano, que jamais revelou à filha sobre o lado sinistro e industrialmente criminoso da IIª Guerra quando os seus amigos, colegas e vizinhos judeus italianos foram enviados para Auschwitz.

Quanto à falta de “sinais” nos livros escolares, Primo Levi faz uma observação certeira:

“Compreendemos, mas não poderíamos aprovar, os professores que ‘suspiram e dizem infelizmente'(“infelizmente” em itálico no original). São homens como nós e como os autores e os responsáveis pelas carnificinas: não é estranho que muitos, mesmo inocentes, sintam vergonha diante dos fatos e prefiram o silêncio. Mas o silêncio, nesse caso, é um erro, quase um crime”(….)”Apesar de tudo, anseia-se pela verdade: portanto ela não deve ser ocultada. A vergonha e o silêncio dos inocentes podem mascarar o silêncio culpado dos responsáveis, podem adiar e evitar o juízo histórico sobre eles”.

Com sua sensibilidade literária, Levi encerra a carta em que responde à filha do fascista:

“Eu também espero que o pai da leitora seja inocente, e é bem provável que o seja, pois na Itália as coisas se desenvolveram de outra maneira. Mas a exposição não foi dedicada aos pais, e sim aos filhos, e aos filhos dos filhos, com a finalidade de demonstrar as reservas de perversidade que jazem no fundo do espírito humano e os perigos que ameaçam, tanto hoje como ontem, nossa civilização”. (Primo Levi, La Stampa, 3 de dezembro de l959).

Primo Levi é um hábil e humano historiador.

Um italiano de Turim, quando afirma que na “Itália as coisas se desenvolveram de outra maneira”. Uma mistificação? Ou uma atenuação?

Levi jamais escondeu a verdade e narra em outros capítulos sobre judeus iugoslavos, gregos, checos que eram escondidos e protegidos por italianos (até mesmo o campeão europeu de ciclismo valia-se da sua bicicleta para transportar documentos falsos para salvar judeus, valendo-se da sua imagem de herói esportivo.

Cuidou Levi  de responder com firmeza sobre os fatos, mas com a delicadeza aguçada (como um pai?) quanto ao estado emocional da estudante, chocada com o que viu na exposição e dizendo-se, abertamente, filha de uma fascista.

Levi, como Benedetti, resgatam a história, não apenas pelos fatos reais da sua crua e pura rotina nos campos, mas sobretudo pela reflexão ética sobre o dever de memória.

As perversidades são reservas humanas, diz ele.. Não ocorreram quando a civilização europeia já tinha legado princípios humanistas, científicos, políticos, econômicos. Nascem antes, são frutos não de circunstâncias favoráveis ou acidentes  factuais. São ideologias políticas para a barbárie e o assassinato massivo.

Não são resultado de acasos ou políticas variantes,  São políticas industriais, racionais, planificadas de aniquilamento de um povo – o povo judeu -, mesmo quando a guerra já estava perdida para os carrascos. Seus trens, seus gases, seus soldados e suas armas continuaram assassinando civis apenas por serem judeus e que em nada influíram ou influiriam na sua derrota.

Quanto aos demais povos do leste europeu, os eslavos, especialmente  russos, poloneses, ucrianos, checos e outros, deveriam tornar-se escravos para alimentar um império.

Foram derrotados os bárbaros. Não em uma guerra ou em batalhas. Foram derrotados pela civilização e pela vida quase exaurida dos poucos sobreviventes, testemunhas, como Primo Levi e Leonardo De Benedetti. Os dois autores prestam, com seus livros, relatórios, testemunhos, cartas, conferências e exposições à humanidade o mais importante legado às gerações futuras: não esquecer; o  silêncio é criminoso e pode absolver os carrascos.

1 Comentário a Primo Levi – Testemunho

  1. Ana Maron Vichi's Gravatar Ana Maron Vichi
    9 de janeiro de 2016 at 15:06 | Permalink

    Como posso mandar uma mensagem pessoal para Wremir? Fomos colegas de juventude, estudamos juntos. Pode entrar em contato comigo?

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