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Marcos Weiss Bliacheris

PODE GRITAR

13.07.2016

Elie Wiesel conta, em um dos seus livros, que um medo recorrente dos judeus em campos de concentração e extermínio era contar tudo o que aconteceu e as pessoas não acreditarem, acharem que era tudo uma fantasia. Poderiam gritar, mas ninguém iria ouvir ou acreditar.
Esta afirmação angustiante encontra eco em Primo Levi ao relatar a fala de um membro das SS aos prisioneiros do campo: “Seja qual for o fim desta guerra a guerra contra vocês nós ganhamos; ninguém restará para dar testemunho,mas, mesmo que alguém escape, o mundo não lhe dará crédito”.
Mas a memória é um dever judaico e os citados Primo Levi e Elie Wiesel foram dois autores que elevaram o testemunho ao status de arte, de literatura, com “É Isto um Homem?”e “A Noite”. Com o passar dos anos, Wiesel transformou-se praticamente no rosto daquela tragédia para boa parte do mundo ocidental, o que o levou a receber o Prêmio Nobel da Paz. Porém, quando esses livros foram lançados, poucos eram aqueles que ousavam contar o que passaram nos campos da morte na Europa.
Muitas vezes estigmatizados como judeus que morreram sem oferecer resistência ou envergonhados do que tinham passado, culpados por terem sobrevivido, muitos sobreviventes guardaram por anos, décadas, a sua história.
Talvez não haja maior perversidade do que fazer o oprimido sentir-se responsável por seu sofrimento a ponto de calar e tentar suprimir a própria história.
A partir de Wiesel e outros que, ao contrário do senso comum, tiveram a imensa coragem de expor a si mesmos e contar seus relatos, passamos a ter um entendimento maior da catástrofe e dos sentimentos das vítimas. Como dizia Wiesel, “se calar era proibido e falar impossível.”
No caso da Shoá, por seu caráter único e pela enormidade do crime, que ultrapassa o nosso entendimento. Mas também porque, impelido a falar pelo seu passado, as palavras não dão conta do horror. Podemos narrar o ocorrido, mas não os sentimentos e sofrimentos das vítimas. Chegamos perto, mas ainda é um simulacro, uma cópia desgastada do que foi aquele momento.
Mas como também diz Wiesel, é preciso falar, pois “o silêncio sempre beneficia o algoz, nunca a vítima.”
Falamos de um evento terrível e único, o Holocausto. Mas, em nosso cotidiano, também há histórias de agressões que não podem ser mais caladas. Pessoas com deficiência têm o direito de ser portadoras de histórias e conta-las ao mundo. Negros vítimas de racismo também.
Um dos relatos mais difíceis de serem produzidos por tocar de forma tão forte na intimidade e na honra das pessoas são os de vítimas de abuso sexual.
Muito difícil é romper o muro do silêncio ainda mais quando o agressor joga com o medo e a culpa, fazendo com que seja difícil vir a público. Os estigmas colaboram para isso, as pessoas tendem a julgar as vítimas, a responsabiliza-las pelos atos que sofreram. Mas, como Wiesel e Levi ensinaram, é necessário romper o silêncio, trazer à luz o que o agressor quer que permaneça em algum canto escuro.
É necessário, até mesmo para fortalecer as outras vítimas. Para uma vítima que fala há dezenas, centenas em silêncio que se reconhecem naquela história. E, também, para os que já não tem voz para falar.
É necessário, para ajudar a superar esses momentos. Como na citação de Isak Dinensen, utilizada por Hannah Arendt em “A Condição Humana”, “todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito”.
Não que eu acredite que fazer o seu relato ou ver o seu relato seja o suficiente. Mas é um começo. É um momento em que a pessoa retoma sua própria voz e, tratada como objeto passa a ser sujeito, dona de sua própria história.
Por dar voz àqueles que não tem voz, transformando relatos de pessoas vítimas de abuso sexual nas histórias destas pessoas, recomendo fortemente que acessem o Projeto PODE GRITAR, idealizado e mantido pelos queridos e talentosos amigos Robertson Frizero e Nurit Masijah Gil (que também tem uma blog neste site! ).
O Projeto PODE GRITAR pretende dar voz às vítimas de violência sexual através da literatura. Como diz o site do projeto, “nossa intenção é usar a palavra para quebrar o silêncio – e mostrar para tantas pessoas atingidas por esse crime cruel que elas não estão sós em sua dor.”
Não deixe de visitar o site, ler os testemunhos. Abusadores existem em todas as raças, religiões, profissões e classe sociais. Lembre-se que a maioria dos abusos são praticados por pessoas próximas à vítima, muitas em relação de poder com ela. E, como adverte Nurit: “Poderia ser ficção, só que é mais real do que você imagina.”

Links para o projeto: https://www.facebook.com/podegritarsite/?ref=ts&fref=ts

https://podegritar.wordpress.com/

 

 

Elie Wiesel, falecido recentemente, sobrevivente da Shoá, Prêmio Nobel da Paz.

Elie Wiesel, falecido recentemente, sobrevivente da Shoá, Prêmio Nobel da Paz.

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