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Pessach, liberdade e identidade

10.04.2017

Por Rafael Bán Jacobsen – Especial para o Site da FIRS

A festa de Pessach é uma das mais significativas do calendário hebraico. Relembra o grande episódio de redenção coletiva do povo judeu ocorrido com a saída do cativeiro no Egito e o início de sua travessia rumo à Terra Prometida.

É, por excelência, a celebração da liberdade, e a íntima relação entre Pessach e esse bem supremo se manifesta nos mais diferentes níveis, sendo a leitura da narrativa bíblica apenas a primeira camada de significado. Busquemos a guematria, por exemplo. Esse método hermenêutico de análise de palavras que atribui um valor numérico a cada letra do alfabeto hebraico vem sendo usado há séculos pelos cabalistas para revelar conexões profundas entre ideias e conceitos. No método conhecido como mispar gadol, um dos mais simples e mais utilizados, a palavra pessach assume o valor numérico 148. Por outro lado, a palavra hofesh, que significa “liberdade”, assume esse mesmo valor no sistema conhecido como atbash, que, antes de atribuir um número a cada letra, troca cada uma delas por seu “reflexo”, transformando a primeira letra do alfabeto hebraico na última, a segunda na penúltima e assim por diante. Essa peculiar técnica de numerologia judaica parece nos indicar que a remição de todo um povo, que é a essência de Pessach, só pode vir como espelhamento de uma liberdade viva, íntima, na qual haja espaço para a identificação entre opostos.

O episódio que deflagra a libertação pessoal de Moisés e que repercutiria em proporções cada vez maiores até culminar no Êxodo ilustra claramente esse princípio. O profeta, criado pela filha do faraó, educado e tido como egípcio, soube, certo dia, que a figura do escravo hebreu não era, na verdade, a representação do seu oposto, não havia nela a presença de um outro, pois ele próprio, Moisés, havia nascido no seio daquele povo tão humilhado. Entre o membro da corte e o mais servil cativo, a distância pode ser menor do que se imagina – a ponto de inexistir. Aquele que a bíblia descreve como “mais humilde do que todos os homens que havia sobre a terra” foi capaz de se identificar com um escravo hebreu que era espancado por um feitor egípcio. A identificação de Moisés com a dor e a humilhação sentida por aquele que era seu oposto foi tão forte que, tomado de justa cólera, ele acabou por matar o agressor. Esse ato foi um radical gesto de autolibertação, pois marcou o momento em que, de uma vez por todas, Moisés escolheu ser judeu. Ele poderia ter fechado os olhos e jamais ter deixado o palácio do faraó; contudo, optou por renunciar aos privilégios da casta em que o destino o havia abrigado para se colocar no lugar dos ultrajados.

Foi esse gesto de libertação individual que acabou conduzindo à libertação coletiva do povo de Israel. Eis aí um corolário da história que Pessach nos faz lembrar a cada ano: uma nação só pode ser livre se cada pessoa antes souber resgatar a semente de liberdade que traz dentro de si. E esse resgate, sem dúvida, começa no instante em que, a partir da observação e compreensão das diferenças (reais ou aparentes), aprendemos a nos colocar no lugar do outro e assumimos, com coragem, a nossa identidade.

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