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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Oy vey

28.05.2016

Já lavou as mãos? Então avental e touca. Separe o moedor. Certo, pode ser o processador. Você sabe como funciona? Sei não, esses botões… No meu tempo era manivela. Moer e exercitar os braços. Três quilos de peixe. Para ficar bom mesmo, carpa, linguado, tainha e pescada. Será que estão frescos? Sua bisavó deixava os peixes nadando na banheira de casa até Yom-tev. Não tinha esta coisa das pessoas ficarem horrorizadas com cordeiro virando carré, não. File au poivre é boi, nugget, frango e salmão, peixe que nadou milhares de quilometros contra a correnteza para fazer a desova. Que mania dessa gente de hoje achar que existe lavoura hidropônica de kani-kama. Isso, deixe moer. Não pode virar pasta nem ficar cheio de pedaços. Sal e pimenta. Experimente. E daí que está cru? Você não adora estas comidas orientais? Um fiozinho de azeite. Isso aqui é comida dos seus antepassados, meidale. Misture as seis cebolas nessa geringonça elétrica. Pronto. Agora arregace as mangas. Sem nojinho. Misture os seis ovos, três quartos de xícara de água fria e uma xícara de farinha de matzá. Sim, tem glúten, que frescura é essa? Eu comia schmaltz no café da manhã e cá estou, uma bubbe ensinando sua neta a fazer guefilte fish.

Vai mexendo com as mãos enquanto eu separo a carcaça dos peixes para o caldo onde já fervem os aipos, cebolas e cenouras. É sempre importante retirar os olhos da cabeça do peixe antes de colocar para ferver. Ei, que cor pálida é essa? Vai tomar um ar para deixar de tsuris enquanto eu coloco a mistura por meia hora na geladeira. Talvez você fique cheirando peixe até o segundo final de semana de junho, mas isso é perfume de iídiche meidale, meu amor. Faz sucesso. Homem a gente fisga pelo estômago. Não, deixa, lavaremos a louça no final. Serão cerca de duas horas e meia entre esponja e detergente, mas passaremos um café e colocaremos o papo em dia. Não revire os olhos, oy vey.

É agora. O caldo está no ponto. Molde os bolinhos molhando sempre a mão em água fria, para não grudar. Coloque para ferver por um bom punhado de horas. Olhe essa bolinha, uma iguaria do nosso povo. Não esqueça que ao caldo coado adicionaremos uma folha de gelatina sem sabor para o melhor dos acompanhamentos de um guefilte fish. Além do chrein, a raiz forte, é claro. Sinta o perfume de séculos de tradição, sheine meidale. Seus antepassados, que migraram do leste europeu extremamente pobres, viviam de batatas, arenque, cebola e pão de centeio. Peixe fresco era um luxo reservado aos sábados e os peixes mais baratos logo estragavam. Misturá-los a cebolas, temperos, farinha e ovos foi a forma que as donas de casa encontraram para fazer o peixe render para toda a família. Cada mishpocheh tem seu segredo de preparo ou um tempero especial, mas para os judeus ashkenazim, nenhuma comida é mais judaica que o guefilte fish, baleboste.

Já cansou? Para quem passa doze horas por dia trancada num escritório, em frente a um computador, sua energia está bem baixa. Tome. Um copinho de vodka. Não conte para ninguém, mas você vai precisar. Já estou desligando o fogo, sinta o aroma do fígado de galinha. Está pronta para o Mish Mash? Hoje é Shabes, sheine meidale. Ainda faltam onze pratos para ninguém passar fome naquela mesa.

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