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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Omar em Orlando

13.06.2016

Hoje cedo, Omar Mateen, cidadão americano, filho de pais afegãos, entrou numa boate gay na cidade de Orlando, Estados Unidos, armado com um rifle de assalto e uma arma de mão automática. Era quase hora de fechar. Omar dispara sem parar. Mata 50 pessoas! Fere outras 53! Sabe-se pouco sobre este homem, neste momento. Se sabe que ele foi casado e que a mulher o deixou há 7 anos, por temer por sua segurança física. Segundo ela, após apenas 4 meses de casados, Omar passou a se mostrar irascível, violento mesmo. Em entrevista para a CNN, ela disse que ele parecia confuso. Falou em suspeita de uso de esteroides. Sabe-se também que o FBI vinha monitorando Omar por suspeitar que ele seria simpatizante de organizações radicais. Antes do atentado, Omar ligou para a polícia e se identificou como simpatizante do Estado Islâmico.  Omar ainda manteve reféns. Acabou morto após trocar tiros com a polícia.

Eu escrevi sobre doença mental e violência em janeiro de 2016 (em https://www.firs.org.br/doenca-mental-violencia-e-internet/). Omar pode ter sido um doente mental. Ele pode ter sido simpatizante de uma organização islâmica radical. Ele pode ter sido um homofóbico. Ele pode ter sido todas estas coisas. Ele pode ter sido induzido pela onda de ódio que fervilha nas redes sociais. O mundo de hoje é um caldeirão propício a atentados com estes elementos.

O atentado perpetrado por Omar já provoca, nas redes, uma série de manifestações de…ódio. Os islamofóbicos criticam os muçulmanos. Os xenófobos querem invadir o Afeganistão. Os simpatizantes LGBT gritam. Os homofóbicos gritam. Pessoas comuns querem a destruição do Estado Islâmico. Organizações radicais celebraram mais um mártir nas redes. Religiosos fundamentalistas de todas as correntes falam em apocalipse.

Não há dúvida de que foi um atentado terrorista. Omar queria infligir terror. Escolher uma boate gay fala em homofobia e sugere que o atentado visava aterrorizar a comunidade LGBT. Mas ele escolheu Orlando, um dos destinos turísticos mais populares dos Estados Unidos, para onde convergem pessoas fascinadas pelas atrações turísticas e pelo apelo de consumo. Uma meca daquilo que radicais consideram pecado mortal. Por esta lógica, ele poderia estar tentando aterrorizar o Ocidente e seus valores. Se ele realmente era ligado a movimentos radicais (islâmicos ou quaisquer outros), só o tempo e o FBI vão dizer.

O que é incontestável é que Omar agiu movido por intolerância e ódio. Se doente mental, como fazem crer indícios, ele pode ter sido induzido. Mas também pode ter agido sozinho, como outros doentes mentais fizeram ao longo das últimas décadas. Paranoia e intolerância sempre estão por trás destes eventos. No século XXI, a emergência de movimentos radicais, a disseminação de ideologias de ódio pela internet e a extrema mobilidade das pessoas acrescentam elementos a este pano de fundo.

Os chamados “lobos solitários” estão por toda parte. Orlando pode não ter sido o último evento destes. Omar pode não ter sido o último terrorista, o último desequilibrado. As sociedades evoluídas, democráticas e com pretensões igualitárias continuam assistindo estupefatas. Há mais perguntas do que respostas. E a pergunta mais importante é: como prevenir, tratar e eliminar tanto ódio?

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