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Leniza Kautz Menda

O nascimento do Estado de Israel sob a ótica infantil de Amós Oz

27.04.2016

Para os judeus do mundo inteiro e especialmente para os judeus que viviam na Palestina, o Estado judeu nasceu, de fato, em 29 de novembro de 1947, no dia em que a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou por dois terços o plano de partição daquele inóspito território. Era um momento histórico, pois, após tantos séculos de Diáspora, os judeus teriam, pela primeira vez, um Estado próprio, embora minúsculo. As autoridades mandatárias britânicas abandonariam o país e o povo judeu poderia viver em paz e prosperidade.

O dia de júbilo e regozijo foi registrado no livro “De Amor e Trevas”, de Amós Oz. Na época, o escritor-narrador era criança; ele, no entanto, guarda vívida na memória os momentos de congraçamento que sucederam a votação a favor do estabelecimento do Estado. O menino lembra que acordara por volta da meia-noite no momento em que a votação estava quase chegando ao final. Ele espiava pelas frestas das venezianas a multidão que se aglomerava na rua, à luz amarelada do lampião. Eram vizinhos, amigos, simples conhecidos e estranhos; alguns de pijama e chinelos, outros de terno e gravata, algumas mulheres de penhoar com cabeças cobertas por lenço; enfim, gente das mais variadas características e procedências, num misto de tensão e esperança à espera da decisão final da votação da Assembleia Geral da ONU reunida em Lake Success.

Oz se recorda do silêncio paralisante que se apoderara da multidão quase ao final da votação que estava sendo transmitida pelo rádio. Assim, no momento em que a vitória foi anunciada, houve uma explosão de alegria inimaginável – a sensação de pasmo era generalizada e os urros e gritos se espalharam por entre os homens, mulheres e crianças. Aquele momento de sua infância ficou congelado em suas recordações infantis pois, independente do regozijo popular, ele se sentiu valorizado pelos pais, amado por eles e imensamente feliz com a união dos próprios pais visto que, até aquele instante, as ausências de manifestações de carinho de um para com o outro fossem muito raras e inusitadas:

“… depois de mais um momento de assombro os berros foram trocados por gritos de felicidade, e berros de Am Israel Hai, o Povo de Israel Vive, e alguém tentou puxar o Hatítkva, o hino nacional, e gritos de mulheres, e palmas, e canções patrióticas, e lentamente a multidão começou a girar em torno de si mesma, como num gigantesco caldeirão, e já nada era permitido e nada proibido, e eu pulei para dentro das calças e sem camisa nem suéter voei diretamente da nossa porta para a multidão na rua, e fui erguido nos braços por algum vizinho ou algum estranho, para não ser esmagado, e fui passado adiante, voando pelo ar, de mão em mão, até aterrissar nos ombros de meu pai junto do nosso portão: meu pai e minha mãe estavam lá abraçados, colados um ao outro como duas crianças perdidas na floresta, de um jeito que eu nunca os tinha visto, nem antes nem depois daquela noite, e eu logo estava no chão entre eles…” (OZ, 2005, pp.407-8)

Houve manifestações concretas de alegria que se expressaram nas danças populares, no choro das pessoas, na buzina dos carros, nas palavras de ordem escritas em faixas de pano e nas bandeiras desfraldadas, no som dos Shofar das sinagogas, alimentando a ilusão de que, na Terra de Israel, realizar-se-iam as esperanças de nossos antepassados.

Essa esperança durou pouco, pois, apenas algumas horas depois de Israel ter sido proclamada, em 1948, houve o ataque dos países árabes e o início da sangrenta Guerra da Independência.

Até hoje nos alimentamos da esperança de que Israel possa viver em paz, nos orgulhamos desse país tão minúsculo territorialmente, mas tão gigantesco que frutificou no deserto, desenvolveu-se científica e tecnologicamente, descobriu novos medicamentos e a cura de muitas doenças, além de medidas bastante eficientes de segurança e combate ao terrorismo.

A esperança d nossos antepassados, bem como a de nossos contemporâneos jamais se extinguirá. Parabéns, Medinát Israel! Am Israel Hai – o Povo de Israel vive.

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