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Leniza Kautz Menda

O Clã nosso, de cada dia

28.12.2015

O filme de Pablo Trapero, O Clã, é baseado num fato real envolvendo a família argentina Puccio. Com a conivência de todos os membros familiares e de alguns detentores de cargos militares, o chefe do Clã, um “honesto” e “honrado” chefe de família, se acha no direito de seqüestrar e assassinar pessoas comuns a fim de exigir polpudos resgates. Esse pai “exemplar” cuida zelosamente dos filhos, supervisiona seus temas escolares e provê o lar de conforto e bem estar material, embora seja um verdadeiro déspota. Os filhos, por sua vez, aceitam passivamente a tirania e a perversidade do pai, visto que usufruem as benesses do dinheiro adquirido através e atos imorais e criminosos.

Essa situação particular do filme pode ser transposta para inúmeras situações e fatos de nosso cotidiano. O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, e os enormes prejuízos ambientais causados por esse desastre praticamente irreversível, é obra do Clã. As ações de desmatamento e o conseqüente desalojamento da fauna bem como a destruição da flora são obras do Clã. O desvio do dinheiro público e a corrupção que assola o país são obras do Clã. Os atos selvagens praticados pelo Estado Islâmico decorrentes do patrocínio e da riqueza de muitos governantes são obras do Clã.

O Clã faz parte do nosso dia a dia; é uma praga que assola a humanidade devido à ganância, o desejo do lucro e a obtenção do sucesso a qualquer preço.

Como filme, o Clã cumpre o papel do bom cinema cuja função não consiste somente em entreter e deleitar, mas, principalmente, em inquietar e provocar o espectador.

Tomara que, no ano de 2016, possamos nos tornar Clãs melhores, menos ambiciosos e mais solidários para com o próximo.

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