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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

O ano em que meus pais saíram de férias

19.07.2017

Assisti recentemente, com bastante atraso, ao filme brasileiro O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, dirigido por  Cao Hamburguer.

Narra a história de um menino judeu, adolescente, cujos pais pelos anos de 1970, são obrigados a se esconderem devido as suas atividades políticas contrárias à ditadura que (anos de chumbo) se prolongou de 1964 a 1985.

O menino será entregue ao avô, que mora no bairro Bom Retiro em São Paulo. Deixado na calçada, dirige-se ao apartamento do avô, mas não há ninguém na residência. O avô, um velho barbeiro do bairro, tinha morrido subitamente minutos antes.

Sozinho e no corredor do prédio, é acolhido por um vizinho, também judeu e idoso e ali se inicia um relacionamento cujas nuances podem ser colhidas e explicadas pela leitura hermenêutica da Torá.

Na verdade, a comunidade judaica adota o garoto, convidando para almoços, festas, e se interessando pelo seu bem estar.

Estamos diante do mandamento bíblico hebreu do acolhimento nas cidades de refúgio. Essa prática sacralizada logo encontrará mais um episódio, quando um jovem é ferido pela polícia e igualmente acolhido pelo garoto e seu protetor, cuidando de suas ferimentos.

Logo o idoso será chamado pela polícia e ficará detido para interrogatório. Nenhuma reclamação, nenhum lamento. A solidariedade – fruto das normas rituais, é mais importante do que o desconforto ou o risco pelo esconderijo.

Em outra cena, nosso menino vai assistir a um Bar Mitzvá. Ele, criado por pais certamente alheios às práticas religiosas, ob serva curioso e atentamente.

O seu amigo, completando a maioridade,  recebe o rolo da Torá para, sob seus braços, exibi-la no templo.

Nesse momento, um dos oficiantes coloca uma coroa de metal sobre as haste do rolo.

Qual o significado?

A lei recebe o símbolo do reinado; é ela quem reina sobre a comunidade.

Para os judeus, desde a antiguidade, o texto da lei é o verdadeiro rei e aqueles que estão sob ela são todos iguais.

É o princípio moderno da legalidade, restaurado pela revolução francesa e adotado por todas constituições de países civilizados.

Suas origens mais remotas, anteriores à república romana ou à democracia grega, no século V a. C. supera a “dura lex sed lex” (dura a lei mas é a lei) latina.

Consta do Deuteronômio, 17,18 e 19:

18.”Será também que quando se assentar sobre o trono do seu reino (o Rei), então escreverá para si um traslado desta lei num  livro, do que está diante dos sacerdotes levitas.

19. E o terá consigo, nele lerá todos dias da sua vida;  para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, para guardar todas as palavras desta lei, e estes estatutos, para fazê-los (serem cumpridos)”.

Isso significa que, chegando a terra prometida, e querendo as tribos um rei, ele será escolhido (sufrágio democrático)entre seus irmãos (igualdade) e manterá uma cópia da lei para cumpri-la e fazer ser cumprida (princípio do primado da lei, ou da legalidade).

O filme ainda nos demonstra que em períodos de ditadura, os judeus são perseguidos – ou por suas ideias e sua insurgência humanitária, ou porque são minoria. Os fatos históricos assim o comprovam.

Mas a lei não é um fim em si mesmo.

No Deuteronômio, 16, 20, o significado da lei e o caminho da justiça:

“20. A justiça, a justiça seguirás: para que vivas e possuas a terra que te dará o Senhor teu Deus.”

A lei conduz à justiça, Se o  caminho não for este, ela não está sendo corretamente interpretada e cumprida.

1 Comentário a O ano em que meus pais saíram de férias

  1. Carlos Alberto Mafuz's Gravatar Carlos Alberto Mafuz
    19 de setembro de 2017 at 22:45 | Permalink

    Grande mestre.
    Os valores junto com a sabedoria do tempo são uma dadiva que temos de aproveitar de sua contribuição para os mais jovens !
    Grande abraço !

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