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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Não digas nunca que esse é o último caminho

20.04.2016

Em 19 de abril de 1943, durante a segunda guerra mundial, os judeus do ghetto de Varsóvia iniciaram um levante armado contra as tropas nazistas de ocupação.

Para os jovens que determinadamente resolveram enfrentar o inimigo, muitos dilemas foram enfrentados.

Não havia a mínima probabilidade de um sucesso militar; possuíam poucas armas, a maioria leves e de pouco poder ofensivo; o inimigo era poderoso, uma máquina de guerra e morticínio jamais montada, e além disso  –   numeroso e naquele momento ocupava

praticamente todo o território europeu; de uma população judaica confinada nos estreitos e cercados limites do ghetto, calculada em 500.000 pessoas, restavam não mais do que 40.000 sobreviventes, subnutridos, sem condições de higiene ou sobrevivência. A população que ali estivera confinada fora fuzilada, levada às câmaras de gás ou morrido de fome e doenças.

Outro problema era a questão política: a maioria não pretendia resistir, desassistida de qualquer capacidade física ou mental para enfrentar o inimigo.

Mesmo assim, Mordechai Anilezicz e os outros jovens líderes do levante, ecoaram os gritos do canto revolucionário judaico: “não digas nunca que esse é o último caminho”, ou o grito guerreiro: “não mais iremos como rebanho ao matadouro”.

A escolha foi libertária.

A mesma escolha dos Macabeus ou dos escravos conduzidos por Spartacus.

De que vale viver sem liberdade?

Surpreendidos com a primeira reação armada, as tropas de choque nazistas tiveram que recuar com seus primeiros mortos em solo do ghetto.

A bandeira azul e branca com a estrela de Davi foi hasteada e tremulou por mais alguns dias, até que terríveis ataques pesados massacrassem todos os revoltosos.

Assim como as notícias da resistência heroica de Stalingrado incentivou os jovens que enfrentaram os nazistas, outros ghettos, logo depois, como Vilna, também se revoltaram.

Não tinham nenhuma esperança de vitória, nem mesmo de sobrevivência.

Escolheram dizer não e mostrar aos judeus e ao mundo que também sabiam lutar.

Passado o tempo, derrotado o nazismo e o fascismo, os judeus sentem orgulho daqueles jovens guerreiros que trocaram a vida pela luta.

Deram um exemplo e alento a todos os que eram combatentes: nas ruas, nas casas, nos campos.

Trocaram a vida escrava pela escolha da luta. A vitória impossível estava nos seus cálculos.

O que o inimigo não esperava era a capacidade de resistência quando imaginavam o povo judeu vencido. A História mostrou, mesmo com seis milhões de mortos, que o julgamento dos fatos condenou o invasor e opressor.

Judeus deveriam desaparecer  na Alemanha, e depois  na Europa.

Um mundo seus judeus, proclamavam os nazistas.

Queimaram seus livros, quebraram suas vitrines, roubaram suas casas, encheram os campos de extermínio

Polônia, Bielorússia, Hungria, Romênia, Lituânia, Ucrânia, principalmente, tiveram sua população judaica milenar praticamente extinta.

Outros judeus sobreviveram, o judaísmo sobreviveu. O nazismo e o fascismo estão proscritos nos países civilizados.

A História é uma sequência de lições. Essa – dos guerreiros do ghetto de Varsóvia – é a mais extraordinária de todas.

Ela recorda o pensamento solitário de Jorge Semprún, prisioneiro espanhol que foi levado com milhares, ao campo de Buchenwald, quando disse por ocasião do aniversário da libertação:

temos que aprender com os judeus a preservar a memória.

Ao que se acresce:  os judeus também lutaram, como seus gloriosos irmãos macabeus:  e nos legaram exemplos cujos  fatos históricos nos mostram que não podemos na História   cometer os mesmos erros do passado.

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