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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Marek

04.05.2016

Ele montou o cavalete, abriu as cortinas pesadas e espremeu na paleta as bisnagas coloridas. O cheiro de terebentina já tomava conta do quarto que transformara-se em ateliê.
Meu avô foi um pintor autodidata. Tinha habilidade, um passado de privações que não lhe permitiu estudar para aprimorar sua técnica e uma capacidade quase inacreditável de superar-se. Era sensível e enxergava além do palpável. Sabia fazer o instante reverberar. E não apenas nas telas.

Naquela tarde de sábado ele pegou um livro, uma barra de chocolate e me ensinou sobre profundidade, perspectiva e sombra. Sobre primeiro plano e mistura de cores, mas também sobre amor e acolhimento. E eu, que aguardava ansiosa o dia em que ele me ensinaria a pintar, ganhei um mundo.

Meu Marek de nome polonês e alma brasileira foi gigante. Foi avô e foi pai, deu carinho, deu bronca. Foi ele quem ensinou que não se deixa ninguém na mesa comendo sozinho e que dela só se sai com permissão. E ai de quem não o fizesse. Era ele quem ligava quando minha mãe estudava à noite apenas “para saber se estava tudo bem e se já havíamos jantado”. Quem vestia-se de Papai Noel no Natal (provavelmente éramos a única família judia visitada pelo Papai Noel), quem dava em segredo um chiclete todas as sexta-feiras. Foram com ele as melhores férias. Foram dele os grandes ensinamentos. São as lado dele as maiores lembranças.

E eu, tantos anos depois, sei tirei a sorte grande por ter aprendido sobre as tintas e a vida com este homem que, como bem disse minha mãe ao despedir-se dele, foi tudo para nós.

Naquela noite, após assinarmos nossos nomes, orgulhosos, comemos o pão com mel que ele tanto gostava e assistimos televisão juntos antes de dormir. Dentre todos os quadros dele que eu tenho pendurados na minha casa, este não é o mais bonito. Mas foi pintado num dos dias mais felizes da minha vida.

 

Quadro

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