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Marcos Weiss Bliacheris

Marcha da Intolerância

16.05.2016

Nestes dias, próximos ao Iom Hashoá (dia da lembrança dos judeus assassinados no Holocausto), em que tivemos a Marcha da Vida reunindo jovens judeus do mundo inteiro, é interessante observar um caso que está acontecendo na Itália e que vendo sendo tratado com bastante seriedade pela comunidade judaica local e repercutindo na imprensa internacional.

Escolas judaicas de todo o mundo enviam alunos a viagens aos campos de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial para estudar no local onde os fatos aconteceram. Esta prática é comum também entre escolas européias, como na Itália, onde uma excursão escolar vem dando o que falar. O motivo: a exclusão de uma aluna autista, de 14 anos.

A escola, situada perto de Milão, se tornou notícia nacional quando os pais de uma aluna autista tornaram público que ela não iria participar da excursão com seus colegas após denunciarem a escola que a jovem estava sendo excluída por seus colegas.

Tudo começou com os onipresentes grupos de Whatts App. No grupo da turma do oitavo ano, os colegas (do qual a aluna não fazia parte), logo após o anúncio da viagem, os alunos já diziam que ninguém iria dividir o quarto com aquela garota. Diante da proporção que o caso tomou, diante do sentimento de exclusão e das mensagens trocadas, os pais da estudante pediram uma reunião com a escola e com os outros pais para tratar o assunto.

A mágoa maior dos pais não foi com o duro tom das mensagens dos colegas, mas que o mesmo tom também foi usado pelos professores. Que os pais silenciaram diante disso. Que a escola negou que fosse um problema de bullying ou inlcusão. Que, após tentarem uma reunião, não obtiveram resposta dos outros pais. Que as (muitas) críticas foram públicas e os (poucos) apoios foram privados, quase envergonhados.

Como diz a mãe disse ao jornal Corriere de La Siera: “tantas palavras bonitas, mas, na hora de agir… na escola organizam palestras contra o bullying … mas, de verdade, o que mais me dá raiva não são os companheiros de classe. Essa mensagens…são coisa de jovens. São os adultos que me decepcionaram e entristeceram.”

Uma situação que acontece em qualquer escola que tenha um aluno com deficiência estudando. Uma situação que qualquer pai de autista viveu parecida. QUALQUER UM.

Uma situação comum, basta você querer observar e não olhar para o outro lado ou fechar os olhos como fizeram os pais dos jovens italianos.

Um novo grupo de whatts app foi criado, sem os pais da garota autista. Os pais dos adolescentes da turma e a escola se uniram em um grupo coeso, sentindo que a sua imagem e a de seus filhos estava sendo afetada. Como a reunião não saiu e sua angústia não encontrou receptividade junto aos outros pais ou junto à escola, denunciaram a situação ao Ministério da Educação e decidiram que sua filha não iria à excursão.

O colégio público italiano e os pais dos demais colegas tentaram colocar panos quentes na situação, dizendo que tudo tinha sido um grande mal entendido. Para quem costuma acompanhar casos semelhantes, na grande maioria dos casos que vem a público, esta é uma explicação quase universal. Como eles disseram, sua posição sempre foi “conciliatória” e buscando “restaurar a calma”.

Como destacou a emissora inglesa BBC, condenaram a família por defender seu filho, outra situação que se repete muito.

Os pais de autistas muito comumente são acusados de autores de terríveis mal entendidos e de exagerar nas reações. Assim como os judeus em caso de antissemitismo, os negros em racismo e os gays na homofobia. Parece familiar a vocês?

Com a repercussão na imprensa italiana e internacional, o Ministério da Educação italiano suspendeu a excursão para averiguar o que estava acontecendo e estudar as medidas que deveriam ser tomadas. A mensagem foi clara: ou vão todos ou não vai ninguém.

A escola, claro, ficou indignada por tal situação ter vindo a público. Afinal, diziam, ela poderia resolver a situação (mas não o fez).

A comunidade judaica não ficou inerte frente à polêmica. Manifestando-se através da Fundação Museu Shoah, externou de forma pública e direta a sua solidariedade à família. Os representantes da Fundação propuseram uma excursão guiada à garota excluída por seus colegas, caso fosse seu desejo. Os pais agradeceram à Fundação mas expressaram seu desejo de que a filha fizesse a viagem junto com seus colegas como é seu direito.

O dirigente comunitário Riccardo Pacifici colocou a Fundação à disposição para realizar um trabalho educacional com os alunos da escola. Declarou à imprensa israelense que “nosso trabalho é educar crianças contra o preconceito e a indiferença. O fato de que uma criança de 13 anos seja discriminada no que supostamente seria uma viagem educacional sobre o Holocausto é entristecedor e absurdo”.

Mas de tudo que foi falado, talvez o mais significativo foi quando Mario Venezia, representante na Itália da Shoah Fundation, lembrou que pessoas com deficiência também foram perseguidas e mortas pelos nazistas e arrematou:

“Educar crianças sobre o Holocausto não é somente mostrar documentos e levá-los em viagens aos campos de extermínio. Também é ensiná-los a aceitar e respeitar as diferenças no dia a dia.”

Ler livros e recordar datas é muito mais fácil que vencer o preconceito e a indiferença. Para fazer isso, não podemos ficar parados, temos que acolher as diferenças e estarmos preparados para as dificuldades do caminho. Isso dá muito trabalho. Mas isso que fará a diferença entre caminharmos a Marcha da Vida ou a Marcha da Intolerância.

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