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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

“Mãe, posso entrar no carro bem devagarzinho?”

10.03.2016

– Eu não moraria em Israel porque não quero ver meus filhos no exército de um país constantemente em guerra.

A frase deixou uma amiga israelense, com quem conversava há alguns anos, incrédula. Eu estava convicta, apesar de seus argumentos de que minha teoria era fruto de ignorância.

Acabei de voltar com minha família de uma longa viagem ao exterior. Foram três semanas em que meus filhos brincaram em parques públicos livremente, fizemos piqueniques e passeios ao ar livre sem olhar para trás uma vez sequer.  Não espiávamos o retrovisor a cada par de segundos. Não os agarrei com medo. Não pedi que andassem mais rápido. E eles demoraram a se acostumar:

– Mas nós podemos mesmo ir andando sozinhos na frente de vocês?

– Não tem nenhum perigo?

– Mãe, aqui eu posso entrar no carro bem devagarzinho? Que legal!

Uma criança achar legal viver em segurança fez meu coração afundar.

Meus dois filhos são pequenos. A mais velha, com seis anos, anda sem cinto de segurança na cidade. Algum tempo atrás, uma amiga foi assaltada com o filho preso na cadeirinha do carro e mais tarde nos confessou, aos prantos, que não teria tido tempo suficiente de tirar dois filhos antes do bandido acelerar. Sim, é uma irresponsabilidade grande pedir que minha filha ande assim, mas num assalto, poderei sair com os dois do carro.

Conheço poucas pessoas que ainda levam uma vida normal. A maioria, pensa vinte vezes antes de fazer qualquer programa. Na escola dos meus filhos, chamam de loucura estacionar o carro no outro quarteirão. Eu não tenho tranquilidade para frequentar parques, moro num condomínio fechado, prefiro não sair à noite. Abandonei São Paulo há treze anos por medo da violência e hoje estou no meio de uma guerra civil em Porto Alegre. A mesma que tomou conta de todo o país.

Vivemos em pleno caos político, sofrendo com recessão econômica. Temos seríssimas questões de educação, saúde, retorno de impostos. Os otimistas – estes incansáveis – dizem que talvez haja alguma melhora a médio prazo. Talvez. Mas e para a violência descontrolada, haverá saída? Se houver, será que meus netos a conhecerão?

Como ouço muito por aí “é rezar todos os dias antes de sair de casa”.

Grande solução.

Faz tempo que não falo com essa amiga de quem gosto tanto. Preciso ligar e dizer que ela tinha razão. Privilégio de quem vive num país cujo governo preocupa-se com seu povo.

Loucura é criarmos nossos filhos no Brasil.

4 Comentários a “Mãe, posso entrar no carro bem devagarzinho?”

  1. 11 de março de 2016 at 00:03 | Permalink

    Belíssimo texto!
    Parabéns !
    Adoro suas reflexões…

  2. Rafael's Gravatar Rafael
    11 de março de 2016 at 15:12 | Permalink

    Parabéns, excelente texto!

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