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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Louca e egoísta

30.03.2017

Era vinte e seis de julho de dois mil e três quando a mulher ainda menina secava toda a sua alma em prantos no aeroporto de Congonhas.
A ânsia e coragem bradadas até poucos dias anunciavam agora uma queda livre monumental, que de fato aconteceu. Eu cheguei em Porto Alegre com aliança, três malas e uma vontade de chorar que durou trezentos e sessenta e cinco dias, lavando com lágrimas torrenciais todo o orgulho com o qual eu vinha bradando a quem me chamasse de louca ou egoísta que eu tinha era espírito livre. Não tinha.
Nem espírito livre, nem amigos de infância, nem emprego, nem família, nem onde almoçar aos domingos ou com quem passar as festas judaicas, nem lugares onde eu me sentia em casa. Meu passado havia ficado naquele aeroporto. Eu não era mais a Nurit filha da Eliana e do Ronald, irmã da Karina e da Vanessa, publicitária recém formada, ex-aluna do Peretz e do Dante. Eu era a Nurit, paulista, que vivia respondendo sem grandes certezas à insistente pergunta “o que você veio fazer aqui?”.
Estava distante apenas uma hora e meia de avião de todas as minhas referências, mas ganhei intimidade com a solidão, com o silêncio, com a independência. E com a paciência, que esperou o tempo secar as lágrimas.
Durante anos, pintei no quadro em branco uma nova pessoa, que talvez não existisse se eu não tivesse saído de São Paulo com aquela mala de coragem extraviada no percurso. E a verdade, é que gosto demais de suas cores. A Nurit empreendedora, amante das palavras, que se expõe, que formou uma família, que prepara os próprios almoços de domingo, que convida para as festas judaicas, aquela mesma de quatorze anos atrás, mas que aprendeu a ser em primeira pessoa.
Estou arrumando as malas novamente. Sei que vou cair, chorar, perder referências, chegar sem passado. Continuarei sem amigos de infância, sem lugares onde eu me sinta em casa, perdendo as festas de família, as primeiras palavras dos meus sobrinhos. Talvez, novamente, eu não tenha tempo de me despedir de quem eu amo. E tudo isso dói sim, muito. Mas aprendi que a gente não deixa de existir na distância, nem de amar na ausência. Apenas vivemos nossas escolhas e, com a minha mala cheia de motivos – infinitamente mais pesada que a de quatorze anos atrás – tenho uma certeza: eu escolhi não me arrepender dos sonhos que deixei de realizar.
Andam de novo me chamando de louca e egoísta. Tenho um pouco dos dois. Ainda bem.

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