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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Libertando-se de Auschwitz

13.01.2016

Vinte e sete de janeiro de 1945. Quatro batedores a cavalo do Exército Soviético acercam-se do lager Auscwitz. A Alemanha estava derrotada. Esses quatro soldados ucranianos vinham avançando rapidamente desde as vitórias das batalhas de Stalingrado, Moscou e Kursk.

Levavam a terrível carga de vinte e sete milhões de soviéticos assassinados depois da invasão nazista, duas mil cidades destruídas e seu país reduzido a escombros. Por isso, no caminho da justiça em direção a Berlim, o encontro com Auschwitz (também Treblinka).

São sobreviventes não mais de sete mil prisioneiros.

Em A Trégua, Primo Levi, um dos sobreviventes de seis milhões de judeus assassinados, narra que ao acordar, naquele dia, percebeu o silêncio. Nenhuma ordem gritada nem os gritos ou gemidos dos espancados para a câmara de gás ou trabalho forçado. Levi era prisioneiro no campo de propriedade da I G FARBEN e trabalhava como escravo no laboratório (doutor em química pela Universidade de Turim) e aprisionado quando treinava para se engajar nos partisans.

Os alemães tinham fugido com a aproximação do Exército Vermelho. Logo os portões foram abertos. Poucos prisioneiros saíram para as florestas. Não conseguiam caminhar ou já não tinham mais consciência da liberdade. Um dos sobreviventes, cujo testemunho foi coligido por Steven Spielberg , disse que o soldado russo levou-o no colo e lhe beijava na face.

Em 1946, Levi e seu amigo (médico, vizinho e também sobrevivente) Leonardo De Benedetti escreveram o extraordinário relatório sobre o campo a pedido dos libertadores soviéticos (Assim era Auschwitz, livro póstumo ). Nada pode ser acrescentado. O relatório tem feição científica e é resultado de um testemunho autêntico e instantâneo.

A data de vinte e sete de janeiro foi fixada por resolução da ONU como dia universal de memória e lembrança da maior tragédia ocorrida na História.

Uma máquina industrial, planejada e racional para eliminar o povo judeu da Europa. Eles foram virtualmente extintos da Alemanha, Áustria, Polônia, Bielorrússia, Hungria, Grécia e Romênia assim como milhões de eslavos, ciganos, homossexuais, deficientes, além dos inimigos políticos (socialistas, comunistas). A lista é interminavelmente dolorosa. A data escolheu um símbolo: o maior dos campos, com onze campos anexados ao complexo da morte.

Não há julgamento jurídico hábil e suficiente. Nenhuma punição seria adequada. Não se trata mais de julgar apenas. É indispensável entender.

Quem tomar conhecimento deverá se transformar em testemunha, contar e explicar. Só nos resta a memória crítica e ética para lembrar com consciência e não admitir que se possam repetir as condições econômicas, sociais e políticas de superioridade de qualquer espécie, ódios e discriminações que criaram os campos de extermínio.

Jamais esquecer.

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