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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Ledor vador

27.11.2015

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Adoro esta foto.

Minha filha sempre participou conosco do Shabat. Ensinamos que ela deveria fazer o movimento circular com as mãos e fechar os olhinhos na brachá das velas. Mas neste flagra de alguns anos atrás, que num primeiro momento tem até certa graça, ela colocou em prática o que incentivamos que fizesse em todos os aspectos da vida: ela questionou.

Sou judia em cada milímetro da minha alma e isso tem pouca relação com a religião. Comemoro apenas os principais chaguim, adoro bacon, atendo o telefone no Shabat. Certa vez, me perguntaram quão difícil poderia ser eu simplesmente cortar o presunto da minha dieta.

– Seria facílimo, prefiro peito de peru. Mas dê um bom motivo para eu fazê-lo.

Nunca escutei um que me fosse suficiente.

Minha razão supera minha fé. Sou essencialmente laica. E judia.

Judia quando acompanho minha mãe na preparação do guefilte fish, receita de gerações em todas as famílias. Quando vou à sinagoga e os cânticos me emocionam. Quando ensino as músicas em hebraico da minha infância aos meus filhos. Quando digo shpilkes, michigne, shlufen. Quando as velas do Shabat iluminam minha casa. Sou judia quando não canso de repetir o que meus antepassados viveram para que eu pudesse estar aqui. Quando, num novo estado, minha comunidade fez com que eu imediatamente pertencesse.

Sou absolutamente judia quando elogiam meu povo. Sou ensandecidamente judia quando o criticam.

Fui judia quando dei sete voltas ao redor do meu marido na chupá. Quando escolhemos os nomes em hebraico de nossos filhos em homenagem aos seus bisavós. Quando vesti meu caçula para o Brit Milá com a mesma roupa usada por meu pai. Quando colocamos mezuzot nas portas de nossa casa. Quando ensinei à minha filha que fechasse os olhos durante a brachá das velas.

Desejo que ela siga questionando e escolhendo a religiosidade que lhe fizer sentido. Depois da foto e de olhos abertos, a Taly sorriu e repetiu “amém”. A identidade, essa sim, é parte dela. Judia em cada milímetro da alma, como eu.

 

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