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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Jerusalém, capital de Israel

08.12.2017

No dia em que EUA reconheceu oficialmente Jerusalém como capital de Israel…

O despertador tocou cedo. Lá fora, o vento deixava clara a nova estação. Meus filhos dormiam de bochechas rosadas debaixo de alguns cobertores. Filhos de bochechas rosadas são definitivamente um presente da vida. Ainda não me acostumei a acordá-los cedo de domingo a segunda, com finais de semana de apenas um dia. Shabat. As camisetas brancas estavam perfumadas na gaveta para a celebração semanal no colégio. Com eles lá, descobrindo um novo mundo, e eu sem aula no Ulpan, pude ir com calma ao shuk da cidade abastecer a geladeira para a semana. O caixa me pergunta em hebraico com sotaque carregado que semente era aquela que eu havia escolhido. Nada de hebraico, árabe ou russo. Sabia a resposta somente em português, bastante inútil no momento. Um café na Ahuza – principal avenida da pequena Ra’anana – com meu marido e uma conversa sobre a semana. A vida anda corrida, corrida demais. Novo país, novo idioma, uma centena de novos desafios. Ainda é difícil colocar em palavras o significado de estar aqui. Talvez aquele tipo de amor que existe apesar de tudo. Incondicional?
Resistimos aos sufganiot que já invadem o ar com aroma de Chanuka. Não resistimos e compramos burekas. As ruas e os mercados estavam agitados como acontece toda a sexta-feira, dia oficial de resolver pendências diversas antes do sol se por e iniciarem as horas de descanso – e de comércio fechado. Os noticiários pedem cautela. Como há duas semanas (quando preparamos nosso bunker com mantimentos básicos). Como há algumas décadas. Como há séculos. Como há milênios.
Agora o aroma de sopa de legumes invade a sala. Corrijo o sal. Adiciono cominho. Escutamos os vizinhos saindo. As janelas dos apartamentos ao redor estão com as luzes acesas. Os vidros embaçados com o que quer que esteja fumegando nas panelas. Tradição. A refeição mais significativa da semana está quase no ponto. Com amor. Com pressa. Com rotina. Com história. Meus filhos já estão de pijama, colocando granulados coloridos em cima dos cupcakes de cenoura que preparei para eles durante a tarde.
Se estou com medo? Não.
Se estou repensando rumos escolhidos? Não.
Se estou orgulhosa? Sim.
De 1948.
E de 1967.
Dos que tiveram coragem durante história.
De Ein Harod.
Dos meus avós.
Do que somos.
Do que nos tornamos.
De hoje.
Deste país que eu amo incondicionalmente.
E da vida aqui, que acontece a despeito de tudo.

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