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Marcos Weiss Bliacheris

Jacó e Esaú

16.11.2015

Um marcante costume judaico é a leitura da parashá da semana. A parashá é a porção semanal da Torá, lida em todas sinagogas do mundo. Faz parte de um ciclo anual, que começa e termina na mesma noite, na festa de Simchat Torá, simbolizando a continuidade do estudo.
Durante a semana e principalmente durante o shabat, as leituras e estudos estarão dirigidos à parashá da semana. Hoje, com a Internet, temos acesso aos mais diferentes comentários de rabinos de todas as tendências. Eu, por exemplo, acompanho sempre o Rabino Jonathan Sacks, britânico.
A parashá desta semana foi Toldót, que narra a história da rivalidade e primogenitura de Esaú e Jacó. Para quem não lembra, os dois eram filhos de Isaac, sendo Esaú o seu primogênito. Um dia, voltando de uma caçada, Esaú encontra Isaac fazendo um cozido de lentilhas. Esfomeado e querendo a comida, troca a benção da primogenitura com seu irmão mais novo por um prato de lentilhas, pois, como pensava Esaú, iria morrer mesmo.
O Rabino Daniel Pressman, que sempre comenta de forma muito significativa a quem o escuta a porção semanal, enfatizou que, entre ambos havia uma diferença fundamental: como eles viam o mundo. Enquanto Esaú via somente o momento, em que teria a fome saciada por um prato de lentilhas e não via nenhum benefício na primogenitura; Jacó mirava além, as próximas gerações, o que fazia com que a benção a receber de seu pai fosse muito mais importante que um simples prato de lentilhas.
Um olhava a satisfação imediata, o outro, o futuro.
Quando falamos em sustentabilidade e buscamos o engajamento das pessoas com este tema, uma de nossas maiores dificuldades é justamente que fazemos um apelo ao futuro, às futuras gerações, como diz a fórmula consagrada no documento “Nosso Futuro Comum”. Esta publicação foi a que praticamente trouxe ao mundo o termo sustentabilidade e a consciência de um mundo e recursos finitos.
Fala-se em justiça entre as gerações, em deixarmos um mundo para nossos filhos e netos. Bençãos, mas para ser abençoado é preciso ter uma visão apurada. É necessário enxergar além do sedutor prato de lentilhas. O nosso, provavelmente made in China, embalado nos sonhos de consumo pela publicidade incessante e que está na nossa frente.
Quanto ao uso sábio e sustentável de nossos recursos, mesmo medidas que vemos o resultado, como economizar água, luz, separar o lixo, não nos dão um retorno imediato, um feedback tão rápido como um prato de lentilhas. E hoje, não basta saciar a fome, faça-se o check in no restaurante e uma foto do prato para satisfazer a fome de likes. Todos mecanismos de satisfação imediata. Lentilhas de Esaú.
Há algum tempo, lia o artigo de um rabino em que expressava a dificuldade de escrever livros. Primeiro, havia passado para os blogs. Depois, para o Twitter e o Facebook, que davam retorno mais rápido. Lembra que antes das redes, receber uma carta de um leitor um ano após lançado o livro era motivo de alegria. Hoje, seria frustrante.
Tudo isso está mudando a forma como nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Pessoas e meio ambiente.
Que em nossa caminhada, nos inspiremos e possamos ser mais como Jacó, que foi tão abençoado e menos como Esaú.

(c) Durham University; Supplied by The Public Catalogue Foundation

(c) Durham University; Supplied by The Public Catalogue Foundation

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