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Leniza Kautz Menda

O Tribunal da Quinta- Feira

23.12.2016

O livro de Michel Laub, “ O Tribunal da Quinta-Feira, nos surpreende pela atualidade de seus temas, entre os quais a intolerância para com o diferente, a exposição pública das pessoas e as consequências nefastas das revelações cometidas por determinados personagens diante do uso da Internet.

Teca e José Victor possuem um casamento falido. Ele, publicitário sucedido, não sente mais atração nem interesse pela mulher. A derrocada final do matrimônio ocorre quando José Victor conhece Dani, a estagiária júnior que trabalha na agência na qual ele exerce um cargo muito importante. Na verdade, na maturidade, ele se sente fascinado pela beleza e atração da juventude: Dani tem apenas vinte anos.

O rompimento com Teca é um divisor de águas, pois ela, por vingança pessoal ou qualquer outro motivo inconsciente, tem acesso à correspondência eletrônica do marido e a expõe publicamente. As trocas de e-mails entre José Victor e Walter, seu amigo aidético que também se relacionara com Teca, vem à tona. O fato de Walter ser soropositivo também surpreende a mulher que transara com ele com total desconhecimento da doença.

A partir da revelação pública, numa quinta-feira, o publicitário passa à condição de réu e é julgado diante de um tribunal inusitado, um tribunal devastador para sua imagem de fidelidade e carreira promissora na sociedade burguesa na qual estava inserido. Há uma mancha em sua vida pregressa e ele é acusado de misoginia.

As consequências dessa revelação o atingem no cerne espiritual e moral, já que a correspondência com o portador da síndrome da AIDS revela intolerância e não aceitação por parte daqueles que se consideram infalíveis, machos, defensores da lei e da moral. Na verdade, todos os personagens passam a ser réus: José Victor, por ser infiel e manter correspondência com Walter; Dani, a estagiária, por se relacionar com o chefe na ânsia de obter ascensão na carreira e sucesso profissional; Teca, por ter tido um relacionamento sexual com Walter desconhecendo os perigos de tal atitude; Walter, pela solidão, fragilidade e tristeza diante da perda de inúmeros parceiros numa época em que a AIDS era considerada fatal, ou, no dizer de Hélio Costa, “ o câncer do homossexual”.

A Internet é um livro aberto. Esse excelente meio de comunicação pode se tornar extremamente perigoso na mão de pessoas vingativas ou desconhecedoras da ética, da moral ou até mesmo pelo desejo de prejudicar o próximo. O pré-julgamento dos “outros” pode nos alçar à condição de réus. O Big Brother da vida alheia nos julga durante toda semana, e não apenas na quinta-feira como foi o dia exposto no livro. Antes de julgarmos as atitudes dos “outros”, devemos olhar para dentro de nós mesmos, revermos os nossos valores e atitudes bem como preservarmo-nos de calúnias ou dar margem a falatórios infundados. Julgamos, na maioria das vezes, o ser humano pela aparência e não pela essência. O livro de Michel Laub vale a pena por ser instigante, provocador! Li de um fôlego!

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