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Flavio Kanter

Guerra no Trânsito?

04.12.2015

Dia 2 de novembro, feriado e dia dos mortos, dirigia indo para o hospital visitar pacientes internados.

Na Avenida Ipiranga, da Praia de Belas em direção à Ramiro Barcelos, havia um ciclista pedalando na pista direita, onde há ciclovia na esquerda. Quando havia um carro estacionado junto à calçada, o ciclista o contornava sem olhar para ver se algum veículo se aproximava. Ele contornava. A obrigação de manter a distância mínima legal parecia ser só dos outros veículos. Aos ciclistas compete ser protegidos. E não foi só. Ao chegar a sinais fechados, ele avançou em ziguezague, todos. E num cruzamento com sinal fechado e as três pistas bloqueadas por automóveis que esperavam pela luz verde, ele subiu na calçada e avançou. Em todo o percurso, o ciclista passou-me à frente quando parei nos sinais que ele desrespeitou. Eu o ultrapassava mantendo a devida distância, até ele me ultrapassar na próxima parada (só minha) esperando abrir o sinal. A cada vez que o ultrapassei de novo, dei uma breve buzinada, apenas para registrar… Se meu filho Marcelo estivesse comigo, teria dito: “Pai, dirige do teu jeito e deixa os outros dirigirem como quiserem”. Quando o sinal fechou para mim, na esquina da Santana, o ciclista me aguardava sobre a calçada direita. Parei. Quem me acompanhava abriu o vidro, e sob o capacete vimos um senhor com barba, sorriso debochado/cínico, que perguntou: “Qué comprá a bicicleta?” Teve que ouvir: “Não, só quero que tu tenhas mais educação”.

Às vezes no trânsito parece que pensam que “fortes são do mal e fracos são do bem”. O pedestre, o ciclista e o motoqueiro são vítimas e têm todos direitos, nenhuma obrigação. Há muitos que dirigem sem consideração, mas a vitimização dos outros atores dessa cena é injusta.

Outro dia um motorista do taxi que me conduzia perguntou: “será que aquele carro, que trafega sobre a faixa divisória ocupando duas pistas paga dois impostos e nós só um? Ele tem mais direito?”

A convivência respeitosa, com harmonia e consideração pelo outro, faz bem. Em 1975 fui assistir a um show musical num parque próximo a Buffalo, New York, onde havia dezenas de milhares de pessoas. Não lembro do show. E não esqueço do espetáculo que foi ver os milhares de veículos na saída darem espaço, alternando um por um em cruzamentos, todos fazendo isso, ninguém forçando nem buzinando. Relembro disso nos finais de tarde quando saio do consultório e vários motoristas não me deixam saír da garagem ou entrar na rua seguinte.

A convivência pode ser amigável. Faz um bem danado. E não faz ninguém chegar mais tarde ao destino.

1 Comentário a Guerra no Trânsito?

  1. Sílvio Lewgoy's Gravatar Sílvio Lewgoy
    5 de dezembro de 2015 at 21:40 | Permalink

    Meu caro Flávio, tenho visto muito desrespeito por parte de ciclistas e acho um exagero os espaços que estão sendo reservados para ciclovias, em sua absoluta maioria, sem nenhum ciclista as ocupar por longas horas e até dias. A última do Sr. Capellari,o infalível, é colocar um semáforo para os ciclistas exatamente sob o viaduto da Perimetral/ Silva Só/ Protásio Alves, Passo quase diariamente por ali e não vi até agora nenhum ciclista utilizar a ciclovia que foi marcada exatamente num local de tráfego intenso e congestionado em vários horários do dia. Entendo a intenção e acho saudável e importante o uso da bicicleta como meio de transporte, só que nossas ciclovias não têm necessidade nenhuma de serem burras. Conheço estas vias em vários países e nunca vi elas atrapalharem o trânsito como parece ser a intenção dos sábios que administram a cidade e a EPTC.

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