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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

A guerra não tem rosto de mulher

06.06.2017

O título dessa crônica é idêntico ao do livro da ucraniana Svetlana Aleksiévitch, A guerra não tem rosto de mulher, editado pela Companhia das Letras.

A escritora possui o prêmio nobel de literatura de 2015. Já publicou (traduzidos para o português) Vozes de Tchernobil e O fim do homem soviético. Seu estilo é jornalístico. A partir de milhares de entrevistas dos protagonistas reais dos seus romances, portanto, sua literatura é documental e histórica, a escritora monta uma série de narrativas, variadas pelas situações e profissões dos entrevistados, até formar um extenso mosaico em que demonstra três situações: a passagem do socialismo ao capitalismo na Rússia, o desastre de Tchenobil e por fim sobre a II Guerra Mundial, com uma inédita e emotiva abordagem sobre as mulheres soviéticas na frente de batalha.

Em A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana escolhe narrar, pela voz das próprias participantes do conflito, o engajamento das mulheres,

voluntárias ou convocadas, que desde os 16 anos, formaram um exército ou contingentes de partisans com cerca de um milhão de mulheres.

O fato mais marcante, é que embora médicas, enfermeiras, rádio operadoras, exigiam fazer cursos para artilheiras, atiradoras, tanquistas, sapadoras ou marinheiras. Enfrentavam na frente de batalha as mesmas adversidades que os soldados, dormiam nas trincheiras ou abaixo da terra, vestiam roupas masculinas, usavam botas permanentemente, calças compridas e o cabelo cortado rente como soldados.

Venceram preconceitos, mostraram-se corajosas (milhares de condecorações) e jamais abandonaram a luta, mesmo quando feridas.

Um símbolo extraordinário de resistência.

A Alemanha nazista invade a União Soviética em 22 de junho de 1941, com três milhões e quinhentos mil soldados, igual número de tanques e aviões. Em pouco tempo haviam cercado e submetido centros industriais e urbanos como Leningrado, Stalingrado, Kiev, Kharkov. Somente Moscou não foi subjugada, embora semidestruída pela aviação e artilharia.

Os dados recentes demonstram que vinte e sete milhões de soviéticos foram mortos em batalhas, campos de extermínio ou trabalho escravo; duas mil cidades destruídas e um rastro de destruição sem precedentes.

Svetlana tem um foco diferente sobre a guerra na Rússia: o sofrimento humano, a coragem da resistência e o esforço para expulsar o inimigo e persegui-lo até Berlim. Para isso, embora, embora a propaganda ocidental, os soviéticos enfrentaram o peso descomunal das tropas alemãs, húngaras, romenas e italianas. A concentração de tropas alemãs na França, Itália ou na Normandia foi sempre em número reduzido se comparada à frente oriental. Não se renderam como a França e não foram taticamente derrotados como a Inglaterra. Houve um preço terrível, que Svetlana narra, como exemplo, logo no início da guerra – na pág. 382:

“Isso foi no sétimo dia de guerra. Começamos a recuar….Logo começou o banho de sangue. Tinha muitos feridos, mas eles eram tão quietos, tão pacientes, queriam tanto viver. Todo mundo queria chegar vivo no Dia da Vitória. Meus chinelinhos rasgaram, eu já andava descalça. O que vi? Estavam bombardeando uma estação de trem perto de Moguilóv. Lá, tinha um trem cheio de crianças. Começaram a jogar as crianças pelas janelas dos vagões, eram crianças pequenas: três, quatro aninhos. Tinha uma floresta ali perto, e elas iam correndo para a floresta. Aí vieram os tanques alemães, e os tanques foram passando por cima das crianças. Não sobrou nada das crianças….A gente enlouquece com uma cena dessas hoje em dia. Mas na guerra as pessoas aguentavam, só enlouqueceram depois. Adoeceram depois da guerra. Na guerra, as úlceras de estômago cicatrizavam. Você dormia na neve, com um capotezinho fino, e de manhã não tinha nem um resfriado”. (Depoimento de Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sangento da guarda, enfermeira-instrutora).

Não se trata apenas da veracidade histórica e de fontes primárias encontradas pela autora, mas de um relato de qualidade literária indiscutível, criativo pela forma e emotivo sem desfocar da realidade.

svetlana

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