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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

GERNIKA = O ENSAIO PARA A BARBÁRIE

03.05.2017

Os países bascos do norte da Espanha tem um povo e uma cultura muito especial. Falam uma língua totalmente distinta; são predominantemente marítimos, navegadores, pescadores, mineiros e habitam uma das regiões industrialmente mais desenvolvidas da Ibéria. Praticam a república desde tempos imemoriais, elegendo democraticamente seus representantes e votando popularmente suas leis. Sobretudo são pacifistas, extremamente católicos, menosprezam a monarquia e a aristocracia, mas buscam convivência harmoniosa com todos que lhes são diferentes.

Seu maior anseio é a liberdade individual e a autonomia do país basco.  Desde o século XIV obtiveram da Inglaterra o direito de livre navegação e muito depois, do reinado espanhol conseguiram  o reconhecimento da autonomia. Essa, periodicamente, era reafirmada pela presença do rei espanhol ou seu representante junto a um carvalho (milenarmente replantado) perto de uma igreja, onde se realizava uma cerimônia para celebrar a liberdade e a autonomia basca. A cidade é Guernica, ou Gernika em língua basca.

Irrompida a guerra civil, em julho de 1936,  iniciada por uma sublevação dos fascistas espanhóis e liderada por Franco contra a nascente democracia e república espanhola, a autonomia sofreu terrível ameaça. Com o apoio da Alemanha nazista e da Itália fascista, além de tropas mouras e portuguesas, os países bascos enfrentaram  terríveis ataques de artilharia terrestre e marítima, por aviação e infantaria. Com poucas armas, bloqueio naval implacável, o povo basco viu reduzidas suas rações alimentares, mas mesmo em inferioridade, jamais se rendeu. Perdeu a guerra civil para 100.000 soldados alemães, 20.000 voluntários portugueses, 50.000 italianos e 70.000 selvagens marroquinos, além de poderosa esquadra naval, aviões bombardeiros, caças e armamento sofisticado.

Em 26 de abril de 1937, um ataque contra a humanidade foi perpetrado pela aviação alemã. Gernika foi atacada pela Condor, em várias ondas de ataques sucessivos, assim como outros pequenos povoados. Nenhum deles – como Gernika, tinha mínima importância militar.

Um jovem jornalista inglês, G. L. Steer, estava em Gernika e relatou à imprensa inglesa o ataque que destruiu a cidade-símbolo da liberdade e da autonomia do povo basco.

A Luftwafe vinha experimentando seus novos aviões e bombas em apoio aos nacionalistas-fascistas.

Ao Times, Steer escreveu sobre o uso maciço de bombas incendiárias que destruíram o pequeno vilarejo. Crateras com seis metros de profundidade ficaram escancaradas nas ruas, entre as casas, igrejas, escolas e o hospital. Em volta, milhares de mortos e feridos.

O vilarejo, diz ele, “era o centro dos sentimentos nacionais dos bascos”. Tentaram quebrar seu orgulho e sua natureza humana.

O relato completo da reportagem do Times está no capítulo vinte do livro de Steer “A Árvore de Gernika” (Cia. das  Letras, agora traduzido). Um  testemunho de um relato neutro mas emotivo, o livro tem superiores qualidades literárias.

Ele relembra também que desde a primeira grande guerra, os alemães atacaram populações civis na Bélgica e França, destruindo por aviação inúmeras pequenas e inocentes cidades e assassinando em massa a população civil.

Isso se repetiu em Gernika, depois em Lídice e na campanha militar contra Stalingrado.

Entretanto, não passaram uma única vez, embora o sacrifício da população civil.

Se repetirem, não passarão jamais.

“No passarán”.

1 Comentário a GERNIKA = O ENSAIO PARA A BARBÁRIE

  1. Sílvio Legoy's Gravatar Sílvio Legoy
    16 de junho de 2017 at 20:53 | Permalink

    Mais um excelente artigo, como de costume, do meu querido amigo Wremyr!

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