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Francês que fugiu de nazistas quando criança alerta para o novo antissemitismo

04.08.2017

História de sobrevivência de Joseph Joffo ao nazismo chega hoje(03/08) aos cinemas do Brasil.

Aos 86 anos, o escritor francês Joseph Joffo afirma que ser judeu é “carregar 5 mil anos de inquietude consigo”. Tal conclusão não veio facilmente ao longo da vida e, aos 10 anos de idade, quando deixou Paris para fugir do nazismo apenas na companhia do irmão Maurice, então com 12, ele estava longe de ter essa dimensão sobre a religião. Com o objetivo de encontrar os pais e os irmãos mais velhos, Henri e Albert, os dois saíram em direção a Nice, no Sul do país, abaixo da linha de demarcação que dividiu a França em duas entre 1940 e 1944, durante a Segunda Guerra Mundial: a zona ocupada (Norte), controlada pelos alemães, e a zona livre (Sul), administrada pelo governo francês instalado em Vichy. O escritor compartilha a trajetória nesse período trágico da vida no livro “Os meninos que enganavam nazistas” (“Un sac de billes”, no original, de 1973), que chega às livrarias brasileiras pela Editora Vestígio pela primeira vez este mês. O romance histórico virou filme homônimo, em cartaz nas salas de cinema do país a partir desta quinta-feira

 Pai, mãe e Joffo, o caçula de mais três irmãos, formavam uma família judia “não muito crente”, define o escritor, que pondera, no entanto, que “ser judeu não era um acessório”. Ele percebia que a família assumia a origem judaica, pois era normal, conta em entrevista por telefone ao GLOBO. Hoje, pai de três e avô de sete, acredita que o antissemitismo ainda exista, mas se mostra de outras maneiras.

— Como digo, ser judeu é carregar 5 mil anos de inquietude consigo mesmo. Há uma nova forma de antissemitismo, que não se pronuncia. A intolerância religiosa está em todo lugar. Eu digo que a tolerância é tentar entender a intolerância — avalia o francês. — Recentemente, houve um grande veículo da mídia francesa que pediu pelo boicote de produtos israelenses, colocando uma etiqueta amarela para ser reconhecido de longe. Isso não é pouco — afirma, relembrando a época em que a família colocava um anúncio amarelo nas vitrines para indicar a origem judaica aos alemães.

Joseph Joffo declara assertivamente que o papel de sua família ao decidir enviar os caçulas entre quatro filhos à incerteza da estrada naquela época foi fundamental para que obtivessem sucesso na jornada que se estendeu além de Nice, apesar dos pesares. Uma das cenas mais fortes do filme — o dia em que o pequeno Joseph, vivido pelo ator mirim Dorian Le Clech, descobre que terá que partir — está marcada na memória do hoje escritor. O pai, interpretado por Patrick Bruel, lhes orientou: “Vocês são judeus, mas nunca admitam isso”. Com três tapas na cara, ele perguntou, aos berros, a Joseph: “Você é judeu?”, e o menino negou em meio a lágrimas que não conseguiu conter:

— Aquele tapa salvou nossa vida. O golpe doeu, mas ficamos bem. Evidentemente compreendi sua atitude. Meu pai não era violento, agiu contra sua natureza — esclarece. — Minha família fez um trabalho excelente ao nos explicar: “Se disserem alguma vez que são judeus, estão mortos. Vocês serão agredidos, não tem problema, podem ir embora”, disseram. Os tapas doeram, mas não se pode culpá-lo.

Joffo considera a noite em que partiu como o momento definitivo para o fim de sua infância. Ali, a inocência se foi. A partir de então, conta ele, foi um processo de aprender a sobreviver, antes mesmo de viver. Ainda assim, o escritor revela que o medo não consumia sua mente: sempre acreditou que conseguiria reencontrar os pais e os irmãos após atravessar a linha de demarcação, até quando foi pego pelos agentes da SS — a letal tropa de choque do Estado nazista — justamente em Nice.

— A partir do momento em que parti de Paris com meu irmão Maurice, já não éramos mais crianças. Tínhamos entendido que era uma questão sobrevivência naqueles dias. Mas parti livre com ele e, para mim, era como se fossem longas férias — destaca Joffo. — Compreendi o que era a guerra quando fui preso pelo nazismo, tomei um golpe na cabeça e me deparei com um agente da SS apontando sua metralhadora para mim, entende? Ali entendi o que eram o medo e a guerra.

‘UM HOMEM DE SORTE’

A solidariedade de estranhos que conheceu nos trajetos que percorreu em fuga o marcou, mas ele acredita que a maioria deles teve um destino bem mais infeliz. Ele se refere aos que chama de “pessoas que investiam suas vidas em salvar um conhecido judeu”, destacando integrantes da Igreja Católica. Apesar dos cerca de 75 mil judeus deportados a campos de concentração na França, Joffo afirma que a situação era muito pior no exterior.

Após a experiência traumatizante da prisão no Hotel Excelsior, sede da Gestapo (polícia secreta do nazismo) em Nice, Joffo diz se considerar um homem de sorte na vida. O escritor conta que conseguiu escapar dos nazistas no dia em que Simone Veil (recém-falecida ex-ministra da Saúde da França) chegou com a família ao Excelsior, ainda adolescente. A ícone do movimento feminista francês sobreviveu, mas teve a família exterminada no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia: “Vê a sorte que meu irmão e eu tivemos? Saímos juntos”, frisa.

Essa sorte que ainda comove o escritor francês foi retratada em filme pela segunda vez, e já estreou em Israel, Canadá, Holanda, Austrália, Holanda, Sérvia e Grécia desde janeiro. A escolha da direção foi pessoal, pois Joffo acredita que “a sensibilidade de Christian Duguay ia perfeitamente de encontro com a minha”. A relação dos dois no processo foi harmoniosa, e Joffo afirma que foi consultado em diversos momentos do processo de realização do projeto, desde o roteiro. O escritor defende, acima de qualquer outra consideração, que o filme é uma história de amor e solidariedade entre dois irmãos.

— Quando o filme saiu, eu lhe disse: “O discurso é a continuação lógica do pensamento, a escrita é a síntese. E suas imagens me recompensam” — conta sobre a primeira exibição do filme, no início deste ano, evocando uma conversa com o diretor canadense. — Aos 86 anos, chorei olhando minha própria imagem. Acredito que por isso Christian Duguay será meu amigo para sempre.

 

 

Fonte: O Globo

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