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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Fidel e os Judeus Cubanos

28.11.2016

A respeito de Fidel Castro, que em 1º de janeiro de 1959 derrotou desde Sierra Maestra, em Cuba, a ditadura de Fulgencio Batista, que fugiu para Miami, inaugurando um regime popular, tenho algumas anotações que agora são lembradas quando da sua morte aos 90 anos.

Começo por  um vídeo, obtido por meu filho Diego, gravado diretamente da tv pública americana.

É uma reportagem dos anos mais difíceis do bloqueio econômico imposto pelo governo americano, bem como uma mal sucedida invasão de mercenários apoiados pela força aérea estadunidense e derrotada na histórica Baia de Porcos (Cochinos).

A reportagem mostra Fidel visitando uma sinagoga, onde tem uma reunião com os líderes da comunidade judaica cubana em Havana. O prédio é simples e a sala tem uma mesa grande onde todos estão sentados e conversando animadamente.

Os líderes comunitários pedem a licença para importação de matzá para as cerimônias de Pessach que já se aproximava.

O embargo americano não permitia (e não permite) nem mesmo a exportação de alimentos consagrados.

Fidel diz que a licença será concedida. Um dos judeus ali presentes informa que o matzá sempre era distribuído também aos demais habitantes, independentes de serem judeus, o que será confirmado pela reportagem mostrando filas de habaneros na porta da sinagoga aguardando um pedaço de matzá……

Então, cada um expressa seus sentimentos: dizem, quase unanimemente, que não importa o regime vigente, eles são “fidelistas” nos dois sentidos da palavra. Seguem Fidel e a ele são fiéis, como afirmação patriótica de defesa do país acuado e encurralado.

Posteriormente, quando da celebração dos 500 anos da descoberta da América, e ainda apesar do embargo, que implicava em limitação de material de construção, o governo cubano restaurou a  histórica sinagoga de Santiago de Cuba, cidade símbolo  porque foi a primeira cidadela a ser vencida no final de 1958, quando o exército rebelde liderado por Fidel e Guevara se dirigia célere a Havana.

A sinagoga de Santiago de Cuba agora será testemunha do túmulo – monumento no qual ficarão as cinzas de Fidel Castro Ruz, sob a guarda superior do seu presságio:  “‘ a História me absolverá.”‘

Quando estive em Cuba, em período arriscado para os brasileiros e sem registros, perguntei a um diretor de um hotel, onde assisti a um show de música popular sobre os judeus cubanos. Muitos saíram, disse ele. E todos sabiam que estavam implicados com a máfia americano-cubana dos cassinos e da jogatina, que transformara a praia e os hotéis  de Varadero e o centro de Havana vedados  a cubanos (o centro se denominava vedado) – nele os cubanos trabalhavam mas não podiam habitar (como na cidade imperial de Pequim – vedado a entrada a chineses e cachorros. )Mas em seguida lembrou-se do ministro de finanças e entre sorrisos e orgulho disse claramente seu nome: Levi.

Milhões de jovens se comoveram com uma pequena ilha em forma de lagarto (“um largo lagarto verde”, como disse o poeta Nicolás Guillén) e outros milhões foram solidários com o povo que jamais se rendeu ou entregou sua dignidade.

Dentre esses milhões, alguns muitos serão jovens judeus de todo o mundo.

Afinal, eles também sabem que Guevara agiu como um profeta e conhecem os fatos descritos em  uma frase em um cartaz de Havana, dita por Fidel: “nessa noite, 200 milhões de crianças dormirão na rua em todo o mundo; nenhuma é cubana”.

Coincidência entre dois povos com diminuta população? não é mera coincidência.

8 Comentários a Fidel e os Judeus Cubanos

  1. Eli Maruani's Gravatar Eli Maruani
    28 de novembro de 2016 at 17:51 | Permalink

    Vergonha por essa matéria. Em nada Fidel assassino representa os valores judaicos. Fidel e Che estão no mesmo rol de Hitler. Apenas o alvo era outro, não eram os judeus. Mas sua sede por sangue inocente era o mesmo. Uma matéria dessas só pode vir de alguém que em nada entende dos valores judaicos, ou possui uma vergonhosa ingenuidade em relação a realidade.

    • Wremyr Scliar's Gravatar Wremyr Scliar
      29 de novembro de 2016 at 16:58 | Permalink

      Agradeço os comentários recebidos, são bens vindos.
      Não afirmei que FIdel Castro Ruz representa os valores judaicos.
      Apenas relatei fatos que assisti pessoalmente: cenas, conversas e atenções com a comunidade e seus templos.
      Quanto às opiniões: lembro que sempre haverá divergências e contrariedades: segundo os sábios essa é uma característica do povo judeu.
      Quanto aos valores judaicos:eles são universais e não privilégio de uns ou de grupos.
      ABS.
      Wremyr Scliar

  2. Juarez Jover's Gravatar Juarez Jover
    5 de dezembro de 2016 at 16:00 | Permalink

    Belo texto. Saudades do amigo e mestre.

  3. Maria Teresa Pegoraro's Gravatar Maria Teresa Pegoraro
    5 de dezembro de 2016 at 19:21 | Permalink

    Dr.Wrenyr, parabéns pelo artigo. Honrado e digno!!

  4. Pedro Eymard Magalhaes's Gravatar Pedro Eymard Magalhaes
    6 de dezembro de 2016 at 10:11 | Permalink

    Parabéns! Acontecimentos históricos verdadeiros relatados pelo seu testemunho. Excelente! Contra fatos não existem argumentos.

  5. Átila Drelich's Gravatar Átila Drelich
    6 de dezembro de 2016 at 12:46 | Permalink

    Parabéns pela coragem de publicar o artigo. Muitos judeus se negam a ouvir certas verdades.

  6. Yamil Dutra's Gravatar Yamil Dutra
    7 de dezembro de 2016 at 01:20 | Permalink

    Revigorante ler de forma pausada um relato íntimo de uma experiência muito especial! Há poucos dias, em Londres, quase tropeçando nas pessoas que dormem pelas ruas da capital inglesa, lembrei dessa frase do Sr. Castro! Parece que dos milhões que dormem pelas ruas neste mundo consumista cruel, nenhum é cubano.

    • Paulo Amaral's Gravatar Paulo Amaral
      11 de julho de 2017 at 02:25 | Permalink

      Belo artigo do Dr. Scliar. Há muitas controvérsias sobre Fidel Castro. Só consegui entender o porquê quando estive em Cuba. O mal da Revolução Cubana foi Che Guevara, que ainda persiste como personalidade cultuada pelo povo cubano. Em sua gênese, a Revolução liderada por Castro, que não era comunista em nada, mas apenas um nacionalista inconformado com as condições sociais dos cubanos, nunca chegou clara a ninguém. Não se vê em Cuba nenhuma homenagem explícita a Fidel. A História tem duas formas de ser contada e em geral prevalece a do vencedor. Nada disso, entretanto, impediu que Castro fosse um ditador considerado sanguinário por muitos. Ele dobrou-se ao Che, infelizmente. Há bons livros que contam a verdade. Parabéns, Dr. Scliar.

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