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Marcos Weiss Bliacheris

Extraordinário

27.12.2017

Está em cartaz nos cinemas o filme “Extraordinário”, baseado no livro homônimo. Estrelado por Owen Willians e Julia Roberts, conta a história de Auggie Pullman (Jacob Tremblay), um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por dezenas de cirurgias. Na perfeita descrição de minha amiga Paula Piereck de Sá: “Auggie tem 10 anos e nasceu com uma doença que causa deformidade em seu rosto. Pela primeira vez, irá para escola (até então era educado pela mãe em casa). Vai enfrentar muita maldade e incompreensão, mas vai encontrar também solidariedade, amizade e vai tocar a vida de muitas pessoas. A união da família é fundamental. O filme também mostra a situação de acordo com o olhar e a vivência de cada um dos personagens. Extraordinário!”

Como disse meu querido amigo Léo Guerchmann: “Veja! Você sai da sala uma pessoa melhor.”

Eu recomendo o filme para toda família, que foi como vi, com meus filhos de 6 e 15 anos e todos nos emocionamos muito com a história do menino diferente seja pelas dificuldades que enfrenta seja pelos belos momentos. Meus três conselhos seriam: leve os filhos, leia e o livro depois e tenha um lenço à mão.

Ao contar a história de Auggie, o filme mostra que grande parte das pessoas vê somente a deformidade no rosto do protagonista e não a pessoa que está a sua frente. Julgam-o apressada e superficialmente com base em sua aparente feiura, ignorando a advertência milenar de Rabi Meir que recomendava “não olhe para o vaso mas para o que ele contém”.

A tradição judaica coloca várias advertências a respeito desses julgamentos apressados, lembra que “a graça é enganadora e a formosura é vã”, no poema Eshet Chail, “Mulher de Valor” que é lido nas noites de shabat.

O Talmud nos traz um relato interessante sobre julgar alguém por sua aparência.

Houve um incidente no qual Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon, vinha de Migdál Gdor, da casa de seu rabino; ele estava montado em um jumento e passeava à beira do rio. E ele estava muito feliz, e sua mente estava inflada de orgulho porque havia estudado muito a Torá.

Aconteceu de ele passar por uma pessoa extremamente feia, que lhe disse: “Como vai você, meu rabino?”  Mas Rabi Elazar não o cumprimentou de volta. Em vez disso, Rabi Elazar lhe disse: “Que pessoa inútil [reika], que feio é esse homem! Todas as pessoas da sua cidade são tão feias quanto você?” O homem lhe disse: “Não sei, mas você deveria ir e dizer ao Artesão que me fez: “Como é feio o vaso que Você fez”.

Quando Rabi Elazar percebeu que havia pecado e insultado este homem só por causa da sua aparência, desceu do seu jumento, prostrou-se diante dele e disse ao homem: “Eu pequei contra você; me perdoe”.  O homem lhe disse: “Não o perdoarei até você ir ao Artesão que me fez e dizer: “Como é feio o vaso que Você fez”.

Ele caminhou atrás do homem, tentando apaziguá-lo, até chegarem à cidade de Rabi Elazar. As pessoas da sua cidade saíram para cumprimentá-lo, dizendo-lhe: “Como vai você, meu rabino, meu rabino, meu mestre, meu mestre!” O homem lhes disse: “A quem vocês estão chamando de meu rabino, meu rabino?” Disseram-lhe: “A este homem que anda atrás de você”. Disse-lhes: “Se este homem é um rabino, que não haja muitos como ele entre o povo judeu”. Eles perguntaram-lhe: “Por qual razão você diz isso?” Ele lhes disse: “Ele fez isso e isso comigo”. Eles lhe disseram: “Mesmo assim, perdoe-o, pois ele é um grande estudioso da Torá”.

Disse-lhes: “Graças a vocês eu o perdoo, desde que ele se comprometa a não se acostumar a comportar-se deste modo”.(Tradução do Rabino Uri Lam).

Esta história me intriga, pois como pode um homem sábio agir desta forma tão cruel?

O Talmud dá diversas explicações para o ato despropositado de Rabi Elazar. Mas, o que o relato enfatiza é o seu arrependimento imediato. Somos propensos a julgar os demais sem clemência e muito rápido mas devemos evitar isso. Caso não consigamos, devemos nos arrepender de imediato.

O próprio rabino fala que devemos ser macios como o junco e não rígidos como o cedro. A rigidez de comportamento é relacionada à vaidade e ao orgulho que levariam inevitavelmente ao pecado.

O próprio rabino poderia ter dito suas qualidades, declamado seu currículo para minimizar seus erros. Poderia dizer que é um grande estudioso, um grande conhecedor da Torá para se defender. Quantos de nós não fariam exatamente isso ao tomar uma atitude que magoou alguém?

Quantas vezes não ouvimos de uma pessoa que falou alguma frase ou ideia racista que tem amigos judeus ou negros? Quantas declarações homofóbicas são seguidas de uma declaração de que tem amigos ou familiares gays? Quantas instituições justificam o mal tratamento dado a uma pessoa com deficiência dizendo que tratam bem outras pessoas com deficiência? Como se cada pessoa não fosse uma pessoa única e como diz o Talmud, como se cada pessoa não fosse um mundo, onde quem salva uma vida salva o mundo inteiro?

Não! O Rabino Elazar foi flexível como o junco e pediu perdão imediatamente. Diante de uma nova situação, não devemos nos prender às mesmas posições de sempre, mas nos adaptarmos a ela, mesma atitude que deve ser tomada diante de um erro. E julgar alguém somente por sua aparência é um erro terrível que deve ser evitado.

Nossos sábios mostram que ainda que sintamos estranheza quanto à diferença, temos que ter cuidado para não transformá-la em algo negativo e, também, em não envergonhar ao próximo. Se recebermos em nossa casa ou em nosso trabalho, alguém diferente como Auggie, não devemos julgá-lo e envergonhá-lo. Nos dizeres do rabino Jonathan Sacks, devemos aprender a nos engrandecer pela diferença e não a nos sentirmos ameaçados por ela.

 

 

Na elaboração deste texto utilizei a tradução do Sidur da Sefer para o Eshet Chayil e de um texto do Rabino Uri Lam, a quem agradeço pelos ensinamentos e cujo conteúdo está no link no texto.Extraordinário

 

1 Comentário a Extraordinário

  1. Nádia Pilati's Gravatar Nádia Pilati
    27 de dezembro de 2017 at 21:52 | Permalink

    Parabéns pelo artigo!
    Ter a humildade de reconhecer nossos erros é um ato grandioso.

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