Blogs

Leniza Kautz Menda

Etgar Keret, um escritor israelense contemporâneo

06.11.2015

Falar de um escritor israelense contemporâneo que encanta tanto jovens como adultos é falar de Etgar Keret. Ele nasceu em Tel Aviv, em 1967. Além de escritor, é diretor de cinema e roteirista de histórias em quadrinhos.

Em seu último livro “Sete anos bons”, lançado este ano pela Rocco, o autor escreve contos que se passam em Israel durante os sete primeiros anos do nascimento de seu filho. O enredo dos contos dá relevo aos problemas com que se defrontam os israelenses diante dos ataques terroristas, a ortodoxia em oposição ao estado laico, a rejeição de certos jovens ao serviço militar obrigatório, os imigrantes fugidos da Europa pela perseguição antissemita, a importância da paternidade frente à emancipação feminina e a mudança nos papéis desempenhados pelos diversos membros da família, além de outros temas relevantes como a rudez dos motoristas de táxi e o lançamento dos foguetes Kassan e suas conseqüências no dia a dia da população israelense.

Ao expor os conflitos interiores dos personagens, as múltiplas facetas dos seres humanos, a fragilidade e sensação do efêmero, Keret lida com assuntos universais, entre os quais o embate entre a vida e a morte, o amor pelo próximo e a necessidade de preservação da vida, além da preocupação com a continuidade da próxima geração formadora do estado.

No conto intitulado “Pastrami”, o narrador expõe uma situação de ameaça à família quando tocam as sirenes de um ataque aéreo. Seguindo as instruções do Comando da Frente Interna, Shira, a esposa, sai do carro e se deita no acostamento; Lev, o filho, se deita no meio e o pai, por sua vez, se deita em cima deles e apóia as mãos na terra úmida para não esmagá-los. Os pais simulam um jogo no qual a mãe seria uma fatia do pão; o menino, o pastrami, e o pai, a outra fatia do pão. Essa brincadeira é feita com o propósito de dissipar o medo inerente à situação de ameaça. Assim, a criança fica protegida momentaneamente da catástrofe iminente.

Keret trata uma situação trágica através do humor, o que corrobora o pensamento de Abrão Slavutzki segundo o qual “o humor diminui a angústia ao permitir a descontração que suaviza o viver diante da difícil realidade… O humor é uma forma de jogar, de brincar e se rebelar diante da humilhação e do desamparo. É, também, a capacidade de gerar prazer onde, geralmente, ocorreria a dor”. (Slavutzky, 2015, p.23)

A união do trágico e do cômico é muito bem explorada na literatura de Etgar Keret, o que o torna um escritor regional bastante original e, ao mesmo tempo, universal.

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Leniza Kautz Menda

Sabina Berman , uma escritora judia mexicana

06.03.2017

Sabina Berman, uma escritora judia mexicana, escreveu, entre outros livros, o excelente “ La mujer que buceó dentro del...

O Tribunal da Quinta- Feira

23.12.2016

O livro de Michel Laub, “ O Tribunal da Quinta-Feira, nos surpreende pela atualidade de seus temas, entre os...

Rindo do Trágico: o humor na literatura israelense contemporânea

03.11.2016

Segundo Amós Oz: “ Comédia e tragédia são duas janelas para ver a mesma realidade”. Um dia, elas se...

Sholem Aleichem: o Escritor do Povo Judeu

19.09.2016

No dia 13 de maio deste ano ocorreu o centenário de morte do famoso escritor Solomon Rabinovitch, mundialmente conhecido...

De Amor e Trevas, o filme

16.05.2016

O filme, baseado na obra de Amós Oz, transporta para a tela do cinema momentos significativos da autobiografia desse...