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Marcos Weiss Bliacheris

Espalhando luz

11.12.2015

E então é Chanucá. A festa, que no calendário civil normalmente cai no mês de dezembro, comemora a vitória da revolta dos macabeus contra os selêucidas, povo sírio-grego que tentou helenizar o povo judeu (e não conseguiu).

O post de hoje é inspirado em Chanucá e em um artigo que li há algum tempo de uma senhora chamada Vicky Kelman, uma educadora judia norte-americana. Ela trabalha com inclusão e, na tradição americana de acampamentos de férias, é uma das colaboradoras de um acampamento familiar judaico para famílias com crianças com deficiência perto de San Francisco.

Ela fala da parashá (porção semanal) da Torá (B’ha’lotcha) que discorre sobre o santuário do povo judeu nos 40 anos de deserto antes de chegar à Terra de Israel. Essa porção inicia com o mandamento de acender o candelabro (menorá) e iluminar o santuário.

O acendimento da menorá do Templo é parte central da comemoração de Chanucá. O Templo havia sido profanado, assim como o óleo com que era acendida a menorá. O óleo que havia permanecido puro seria suficiente para uma noite mas um milagre fez com que durasse oito noites.

Esse milagre é relembrado nas casas de judeus por todo o mundo com o acendimento de candelabros de nove velas, uma para cada dia e uma que irá acender todas as outras. Assim como a menorá do Templo, que projetava sua luz para fora do santuário, as chanukiót (candelabros de chanucá) são colocadas em local visível para iluminar e espalhar luz para o mundo.

O texto da educadora compara os pais de crianças com deficiência e os educadores que trabalham com inclusão com os cohanim (sacerdotes) que acendiam  a menorá. Ou, usando o ritual de Chanucá, podemos compará-los com o shamash, a vela que acende as outras velas.

Porque é necessário iluminar as crianças com deficiência, mostrá-las como são de verdade. Crianças que precisam de amor mas principalmente de inclusão e de ter seus direitos e ritmo respeitados. Se elas não são iluminadas, sempre há a desculpa fácil de não as incluir por não saber lidar com elas. Não se pode lidar com quem está no escuro, é preciso iluminar para realmente as enxergar.

E vê-las de verdade significa também ver a criança que está ali. Um nome, uma pessoa e não um diagnóstico.

Qualquer pai também precisa acender a luz e iluminar para mostrar o caminho para seus filhos. Sejam eles crianças com deficiência ou não.  E o caminho que a festa mostra está em seu próprio nome, pois as letras hebraicas de chanucá são as mesmas de chinuch (educação).

Espalhar luz e iluminar o caminho é mostrar como chegamos ao destino  certo e alertar dos perigos e atalhos que levam ao errado. É saber iluminar para o filho o que ele está fazendo de errado. Este é o caminho de chanucá, da chinuch. Não é iluminar vaidades e apagar a vela para esconder atitudes erradas.

Aos pais de crianças com deficiência muitas vezes cabe o papel de iluminar outras questões. De falar por aqueles que não podem falar quando a compreensão de suas questões e problemas exija mais tempo e compreensão. Artigos escassos nesta era hiper digital.

A esses pais cabe o difícil papel de defender os seus filhos da incompreensão alheia e de ser também educadores para inclusão. É preciso iluminar também isso em um processo desgastante.

Um shamash acende outras velas. Que possamos espalhar bastante luz pela inclusão. Talvez não seja o caminho mais fácil, mas o mundo já está muito cheio de escuridão. E uma pequena luz afasta um bocado de escuridão.

Chag Sameach!

 

Uma chanukiá pela inclusão e aceitação das diferenças.

Uma chanukiá pela inclusão e aceitação das diferenças.

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