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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

Em Busca do Sentido – à procura da compreensão do Holocausto

26.10.2016

Em Busca do Sentido é o título do livro de Viktor E. Frankl, coedição das editoras Sinodal e Vozes, na sua 39ª edição e que relata e reflete sobre a experiência do autor como prisioneiro de campo de concentração.

Quando narrei a um professor da PUCRS, Faculdade de Humanismo, que estava atuando na coordenação colegiada da VII Jornada sobre o Ensino do Holocausto, realizada em 24 de setembro último em Porto Alegre ele disse que me obsequiaria com um livro, objeto de suas aulas de psicologia.

Recebi por sua gentileza e elegância o exemplar do título acima referido, em primoroso trabalho gráfico e capa muito expressiva.

Viktor E. Frankl foi prisioneiro no campo de Auschwitz, quando já era graduado em psicologia. Nascido em 1905, morreu em 1997, doutorando-se em psicologia.

Foi professor de neurologia e psiquiatria na Universidade de Viena e na Universidade Internacional da Califórnia. É criador da logoterapia, matéria que lecionava nas universidades citadas. Publicou 32 livros, traduzidos para 27 idiomas, inclusive chinês e japonês. Esteve no Brasil em 1984, somando-se às mais de duzentas universidades para as quais foi convidado a proferir conferências

É o criador da logoterapia, muitas vezes denominada de terceira escola vienense de psicoterapia, em sequência às escolas de Freud e Adler.

Nesse pequeno Em Busca do Sentido, em muitas línguas e inúmeras edições com milhões de exemplares, narrativamente é o início da compreensão da logoterapia, a partir da sua experiência pessoal no campo de Auschwitz e suas profundas observações sobre si mesmo, os demais prisioneiros, os capos e seus algozes fardados.

Considerava a situação de prisioneiro como uma situação-limite porque o “lagger” era um campo de extermínio.

Ao abordar e refletir sobre o sentido para o qual enceta a sua busca, encontra a essência do que é ser humano.

Usar a capacidade de transcender a situação desumanizadora, que transformou homens, mulheres e crianças em meros números, sem nome, sem identificação e escravos destinados ao trabalho, se capazes, ou à morte, se incapazes..

Apesar de tudo, do longo sofrimento e da possibilidade da morte seguinte, da situação limite, Frankl descobre que a essência do humano, a sua humanização e a sua humanidade é manter a liberdade interior, não renunciar ao verdadeiro sentido da vida, apesar de todos os pesares.

O ensinamento de Frankl é a demonstração do seu testemunho de comprovação da humanidade imanente ao ser humano, capaz de animá-las para sobreviver, naquelas situações extremas e em outras situações aparentemente sem sentido, nas quais ficam abertas pequenas fendas por onde penetram os pequenos sinais de percepção pelos quais se pode observar o sentido mais profundo da vida e da humanidade.

Embora fosse psicólogo quando foi feito prisioneiro, preferiu a sua verdadeira identidade, aquela real e crua, que lhe foi imposta por seus carrascos: o prisioneiro número 119.104.

Não mais nome, não mais acadêmico, apenas um número.

E com esse número, tentar sobreviver.

Viktor E. Frankl narra, passo a passo, o transporte no trem, a chegada ao campo, a seleção, a desinfecção e por fim a vida rotineira e diária do prisioneiro cujo único objetivo é o prato de rala sopa que lhe permitirá ficar vivo até o próximo prato; não sucumbir à doença e ao desânimo, isso o levaria à câmara de gás, reagir sempre e buscar entender o sentido do que lhe ocorria, assim como aquilo que estava ocorrendo com os outros prisioneiros nos galpões e nos trabalhos forçados.

A segunda fase narrada é a vida no campo até a chegada da liberação e aquilo que ele chama de alívio da tensão.

O sentido principal encontrado por Frankl nada tem de emotivo ou sentimental.
Diz ele:

“O não iniciado que olha de fora, sem nunca ter estado num campo de concentração, geralmente tem uma ideia errada da situação desses.

Imagina a vida lá dentro de modo sentimental, simplifica a realidade e não tem a menor ideia da feroz luta pela existência, mesmo entre os próprios prisioneiros e justamente nos campos menores.

É violenta a luta pelo pão de cada dia e pela preservação da vida.

Luta-se sem dó nem piedade pelos próprios interesses, sejam eles do indivíduo ou do seu grupo mais íntimo de amigos.

Suponhamos, por exemplo, que seja iminente um transporte para levar certo número de internados para outro campo de concentração, segundo a versão oficial, mas há boas razões para supor que o destino seja a câmara de gás, porque o transporte de pessoas doentes e fracas representa uma seleção de prisioneiros incapacitados de trabalhar, que deverão ser dizimados num campo maior, equipado com câmaras de gás e crematório. (…….).

Cada qual procura proteger-se a si mesmo ou os que lhe são chegados, pô-los a salvo do transporte(……..).
Cada qual então representa pura e simplesmente uma cifra, pois na lista constam apenas os números dos prisioneiros”.

Aqui Frankl encontra o âmago da sua observação.

Reagir contra a sua identidade numérica. Livrar-se da morte e manter apenas a vida, na esperança de que um novo prato de comida será obtido. A continuidade da vida é o seu sentido.

Quando realizamos a última Jornada sobre o Ensino do Holocausto, tínhamos presente que a memória como fato histórico não é suficiente para compreender, assimiliar e ensinar sobre o Holocausto.

É preciso que a memória seja crítica, reflexiva; não deixar-se envolver pelo sofrimento, mas refletir sobre ele.

Buscar um sentido: juntar os fatos econômicos, políticos, ideológicos e o imenso mecanismo industrial-militar de organização capitalista que planejou, moldou e executou o Holocausto.

Para isso, Viktor E. Frankl é o psicólogo-filósofo e autor adequado para ajudar a compreender.

A partir da compreensão, a prática unida à teoria e ao pensamento: não permitir que se repitam outros Holocaustos.

2 Comentários a Em Busca do Sentido – à procura da compreensão do Holocausto

  1. 2 de dezembro de 2016 at 20:48 | Permalink

    Muito bom o enfoque. Faço meu comentário. Em 1942, no mesmo mês de maio, os altos oficiais nazistas diziam, ‘mil anos a Germânia!’, breve Homel chegará em Cairo e chegaremos a Jerusalém e vamos esmagar os judeus da face da terra. Era o auge do triunfo do nazismo. Pois, exatos 7 anos depois, no mesmo mês, maio, era proclamado o Estado de Israel, com sua bandeira e hino. Um hino lindo e que tem muita humildade. O holocausto tem uma explicação. Alguns dizem que era esperança de Adolfo H, que os EUA não entrassem na guerra por isso ele se vingou bem depois. Não procede tal hipótese. Outra tese interessante é que os israelitas esqueceram de Deus e suas promessas e ele então deixou serem afligidos e cumpriu a promessa que fez a Abrãao (pai de muitos povos) e depois, em sonho a Jacó, que mudou seu nome para Israel, após lutar com um anjo e ser ferido no ciático. E um outro fato curioso é que judeu é uma linha, uma estirpe do tronco maior, é um dos ‘braços’ (das 12 linhas), e formaram os juditas ou judaítas ou judeus, pelo mundo todo. Mas, os israelitas é o todo maior. Muitos não se viam mais como israelitas e não eram judaítas ou juditas ou judeus. Houve uma separação, agora que a coisa começa a cair a ficha. Porque a Alemanha da gestão nazista (1933/45), mandou para os campos não só judeus, ou juditas, mas foram para lá todas as doze linhas, até os levitas, como foi o caso do levita que se suicidou na Polônia após um acordo desastrado com oficiais alemães para aceitar os muros de separação. O tema deste texto ‘Em Busca de um Sentido’ é muito interessante, porque nos remete a esses raciocínios diversos e vamos juntando os pontos mais interessantes. A procura de um sentido que ainda continua, do porquê ocorreu o holocausto e as diversas teorias, citei apenas duas, uma muito improvável e uma mais provável, dos extremos, e também a busca de respostas do porquê ainda perseguem muito os israelitas, não só os judeus ou juditas ou judaítas. Alguém vai dizer, ah, a separação pós Salomão, o cisma foi ótimo porque os judeus de Samaria ficaram melhores do que os de Jerusalém. Isso é um grande engano. Porque se olharmos História, temos o 12º juiz, Sansão, era filho de Manoá, da tribo de Dã. Na Rússia tem muitos de Dã. Temos Judite, de Betúlia, que salvou Judaítas, que eram israelitas, e ela era de Simeão. Moisés era de Levi. Esdras e Neemias eram de Levi, Zorobabel de Judá, Tobias, de Neftali; o grande Josué, filho da linha de Efraim, era de José, Joselita portanto. Saul, o 1º rei pós os juízes, era de Benjamin ou Benoni, o caçula, cuja mãe faleceu no parto.Idem Samuel grande profeta era de Efraim, e tivemos juízes de todas as linhas de Jacó. Jair era de Manassés. Portanto esta na hora de esquecer que judeu é judeu e israelita é algo a parte. Isso possivelmente desencadeou o holocausto. Gerou uma grande consciência. Mas o mais bacana de tudo é ter pessoas escrevendo estes belos artigos, em busca de um sentido, em que pese o livro que foi algo muito interessante mas não adentrou bem dentro dessa questão muito intrigante e que ainda é um mistério. Abondaram as raízes israelitas onde somente uma linha ficou forte, e depois o holocausto obrigou todos a se repensarem, se unirem, em torno de um Estado, porque afinal não somos só judeus mas sim israelitas. Moisés ao se dirigir ao povo no Egito dizia, ‘povo israelita’. Ele não disse, ‘povo judeu’ e não tirou só judeus do Egito.E passou o bastão para Josúe, de Efraim, um Joselita, aliás José, o 11º fllho de Jacó, poupado, jogado num poço e vendido pelos próprios irmãos que ele os perdoou depois porque ele compreendeu a providência divina. São muitas pontas para serem puxadas e juntadas. Era isso, segue o meu comentário para consideração. Um grande abraço a todos os ‘israelitas’.

    • Wremyr Scliar's Gravatar Wremyr Scliar
      5 de dezembro de 2016 at 11:30 | Permalink

      Edson Fernando Lima de Oliveira,

      Li teus comentários sobre minhas notas sobre o livro Em Busca do Sentido de Viktor Frankl.
      Frankl já era um experimentado psiquiatra austríaco quando foi feito prisioneiro no lagger.
      Seu livro retratam as reflexões sobre as pessoas e a vida cotidiana no campo: em primeiro lugar, a sobrevivência, os mecanismos que para isso os prisioneiros iam adquirindo lentamente, inclusive com os veteranos.
      Em Busca do Sentido não é exatamente sobre o judaísmo, ele é o cenário de fundo.
      Ao criar a logoterapia e tornar-se famoso, Viktor Frankl utilizou seus conhecimentos e sua vivência na raíz do limite da sobrevivência.
      Esse é o aspecto humano extraordinário da sua vida e obra.
      Agradeço suas palavras carinhosas e vejo no seu texto uma culta compreensão sobre o judaísmo e sua história.
      Obrigado.
      Wremyr Scliar

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