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Rogério Friedman

Sou médico e professor universitário. Vivo num meio onde se busca aprender com a História, se busca a verdade e se trata de cuidar do ser humano. Este espaço acolhe ideias atuais, mas não aceita intolerância ou preconceito de nenhuma ordem.

Doença mental, violência e internet

07.01.2016

Ataques aleatórios, quase imprevisíveis, na forma de esfaqueamentos ou atropelamentos de pessoas inocentes nas ruas de cidades de Israel têm sido notícia nos últimos 3-4 meses. Inicialmente, “analistas”, com um notório viés antissemita, atribuiram os ataques à frustração de palestinos com a “ocupação israelense” nas áreas em disputa. O perfil dos atacantes, porém, nem sempre é compatível com esta ideia. Entre eles há pessoas não-militantes, de boa condição sócio-econômica, educadas e vivendo em zonas urbanas com poucos conflitos. Muitos não são religiosos, não são palestinos e  possuem cidadania israelense, vivendo não nos territórios em disputa, mas em cidades israelenses propriamente ditas.

O ataque mais recente foi cometido por um cidadão israelense, árabe, provavelmente não-extremista, mas com histórico pessoal de violência e doença mental e com possível exposição a retóricas radicais. O que leva pessoas comuns, não militantes, a praticarem atrocidades?

Múltiplos fatores interagem para culminar em comportamento violento. O Estudo MacArthur de Avaliação do Risco de Violência mostrou que 18% de portadores de doença mental haviam cometido pelo menos 1 ato de violência no último ano. Esta porcentagem subia para 31% quando o transtorno se associava com uso de álcool ou drogas. Um estudo da Universidade de Oxford mostrou que pessoas com transtorno bipolar ou esquizofrenia poderiam ser um pouco mais suscetíveis a cometerem atos de violência.

Os transtornos de personalidade são classicamente associados com violência. Quando um transtorno de personalidade se justapõe a outra doença mental, a combinação potencializa o risco. Pacientes com alucinações ou ideações persecutórias têm maior risco de cometer atos de violência.

Doença mental pode ser sutil, suas manifestações passando despercebidas pelo paciente, pela família e pela comunidade. Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde, alguma forma de doença mental afeta de 10 a 40% da população nas várias partes do mundo.

Pobreza está associada com violência, mas, em geral, esta ocorre quando existe doença mental (principalmente uso de substâncias). Crises e estresses pessoais, como desemprego, divórcio e ser vítima de crime ou violência doméstica aumentam o risco.

No Oriente Médio, os agressores nem sempre têm histórico de doença mental óbvia, violência sofrida ou mesmo de pobreza ou desvantagem social.

Em comum, têm exposição à incitação. Em alguns países do Oriente Médio, incitação ao ódio ocorre em escolas, templos e ONGs. Mas o espaço mais universal de incitação, hoje, é a internet. O “Lobo Solitário” serve aos propósitos do terrorismo, ao fazer vítimas e propor que espaços públicos são, agora, perigosos. O terrorista “avulso”, em geral, age em apoio a um manifesto que conclama à violência. Estudos mostram que estas pessoas são, no mínimo, muito suscetíveis à literatura radical, no mais das vezes oriunda da internet.

Kenneth Burke escreveu um trabalho sobre a retórica de Hitler onde previu o que viria a ocorrer nos anos seguintes. Estava tudo nas falas e textos do líder nazista. O livro não foi levado em conta, o mundo entrou em guerra, mas a obra demonstrou que o conteúdo da retórica prediz a eclosão da violência e sua forma. E, 80 anos após a ascenção de Hitler, quem consegue estimar o alcance proporcionado pela internet?

Hoje, clérigos e políticos aparecem diuturnamente, na internet, convocando civis a esfaquearem, apedrejarem e atropelarem. Incitam e definem o formato da agressão.

Redes sociais, sites e blogs estão cheios de retóricas preconceituosas, maniqueístas e violentas. Países, organizações de direitos humanos, empresas e pessoas físicas apelam, sistematicamente, aos repositórios de conteúdos na internet, para que removam discursos de ódio ou incitamento. A taxa de resposta é variável e, em geral, desapontadora. E ainda mais decepcionante quando o discurso de ódio tem por alvo Israel. O experimento recente da ONG Shurat HaDin (Centro Israelense de Legislação) demonstrou cabalmente que há preconceito na regulação de discurso de ódio na internet. A ONG criou dois perfis falsos. Um  veiculava mensagens de incitação ao ódio contra palestinos. O outro, idêntico, contra israelenses. Ao receber denúncias, o Facebook retirou a página anti-palestina mas manteve a página antissemita.

Assim, temos os elementos para uma tempestade perfeita: doença mental afetando até 40% da população e a deixando vulnerável a fatores externos (drogas, violência, retóricas); entidades radicais dispostas a usar este potencial em prol da destruição de um inimigo percebido (Israel e outras grandes democracias ocidentais); ampla disponibilidade de meios de divulgação da retórica da violência; parcialidade dos controladores das redes sociais para com a origem dos discursos; falta de regulação global sobre discursos de ódio.

A nova onda de ataques contém elementos que não são novos. No entanto, o mundo de hoje e nossas tecnologias permitem que a incitação se torne arma global. Para mudar, será necessário um grau de cooperação entre nações, empresas, organizações não governamentais e organismos internacionais como nunca se viu. Talvez não se veja. O preço será incalculável.

Foto: R Friedman

3 Comentários a Doença mental, violência e internet

  1. 12 de janeiro de 2016 at 17:31 | Permalink

    O artigo é excelente, muito bem articulado. E as premissas muito bem colocadas. Não tinha lido algo tão bem elaborado, até imprimi e vou guardar esse enfoque. Excelente o diagnóstico. Gostei muito.

  2. 16 de fevereiro de 2016 at 20:03 | Permalink

    Texto excelente, parabéns….. muito para pensar.!

Deixe um Comentário para Edson Olliver (Face: Edson Oliveira)

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