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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Do cheiro e das viagens de todos nós

01.03.2017

Estive lá pela primeira vez em noventa e três. Foi também a última.

A viagem era o sonho dos meus avós. Queriam que os netos conhecessem a terra que era nossa, aquela onde mesmo sem endereço fixo, tínhamos orgulho e salvação. Meu avô, guerreiro, não viveu tempo suficiente para entrar naquele avião conosco e assim, fomos acompanhadas da nossa Sol. Com letra maiúscula, já que não a sou a única da família com nome diferente, passível de dezenas de explicações ao dia. Minha avó, Sol.

Israel, na minha memória mais doce, tinha um cheiro. E ele era delicioso. Durante a viagem, fui colecionando pequenas recordações na expectativa de guardá-lo pelo maior tempo possível. O jogo americano de papel do restaurante, o sache de açúcar do hotel, o guardanapo da barraca de sucos, os cartões postais com fotos de Nuriot. Aquele cheiro me inundava de tal forma, que minha ânsia era por nunca mais esquecê-lo.

Eu tinha treze anos e, hoje sei, uma visão um tanto nebulosa de tudo. Ficaram nuances. De Massada, do Santo Sepulcro, do Domo da Rocha. Das lágrimas em Yad Vashem. Do museu da Diáspora. Do meu choque com a vida dos beduínos, de comprarmos garrafas de água para jogarmos em nossas cabeças no deserto, da delícia que foi flutuar no Mar Morto. Dos pergaminhos do Mar Morto. De plantar uma árvore. Do mar de Tiberíades, do entardecer encantador em Yaffo, dos jardins Bahai.

Mas dentre tantas pinceladas, uma memória é tão clara, que às vezes fica difícil acreditar ter acontecido há quase vinte e cinco anos.

A memória do dia em que minha avó chorou.

Não lembro tanto do Kotel, onde havíamos acabado de chegar, quanto dela aos prantos. Eu, entre incrédula e preocupada, pouco sabia o que fazer. “Calma, vó”. E ela chorava. E cantava Haleluia la olam. E chorava. Até que conseguiu dizer. “O sonho se realizou”.

De volta ao Brasil, eu demorei meses para me acostumar com a falta e a saudade. Guardei todos os meus garimpados souvenirs numa gaveta que só eu abria, já que o que eles poderiam oferecer só fazia sentido para mim. O cheiro que eu não queria esquecer.

Tantos anos e tantas mudanças depois, já não tenho os objetos ou a gaveta. O tempo que a deixou inodora cuidou para que o olfato não fosse o único sentido a me conectar com aquela Terra. Talvez – mas quem pode dizer ao certo? – ele tenha sido tão forte apenas para mostrar à menina de treze anos que a conexão com aquele lugar era infinitamente maior que uma viagem com guia, fotos e diário.

Até que hoje, arrumando memórias, encontrei empoeirado e com as páginas amarelas um livro de imagens. ‘Así es Israel’. E na primeira página, a dedicatória com todos os significados. Do cheiro, da conexão, do choro e das viagens de todos nós:

“Querida Nurit,
E o sonho se realizou. Israel é uma realidade.
D´us nos abençoe.”

Eu tenho trinta e seis anos, uma visão já pouco nebulosa do mundo e uma certeza. Daquela viagem incrível, mesmo aos treze anos, eu guardei o que ela me ofereceu de mais especial.

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