Blogs

Marcos Weiss Bliacheris

Diálogo no Escuro

22.02.2016

DIÁLOGO NO ESCURO
…não porás obstáculo diante do cego
Levítico 19:14.

A exposição “Diálogo no Escuro” nos convida a passar quarenta e cinco minutos no escuro, fazendo um trajeto pela cidade como se fossemos cegos, permitindo-nos colocar no lugar de outro.
Quem se dispõe a enfrentar este teste de se colocar no lugar de uma pessoa com deficiência visual, um cego, vive uma rara experiência. Uma experiência que continua muito além do curto espaço de tempo em que a vivemos.
A exposição itinerante, que está aberta à visitação em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi criada na Alemanha e visitada por mais de 8 milhões de pessoas em todo o mundo, em mais de 30 pela Europa, Ásia, Oriente Médio, África e América. Também é responsável por gerar empregos para pessoas com deficiência visual por todos os lugares onde passa.
Em Israel, a exposição, também chamada de mostra sensorial  encontra-se no Museu das Crianças em Holon. Lá também está a exposição “Convite ao Silêncio”, dedicada ao universo dos deficientes auditivos.
Em São Paulo, a mostra poderá ser visitada até julho no UNIBES Cultural, uma instituição judaica. Não foi a primeira vez que fui a este local. Já o havia visitado antes, quando ainda era o Centro de Cultura Judaica. Gosto da bonita estação de metrô que lhe dá acesso, o prédio é muito bonito, e as placas em português e hebraico sempre me dão um sentido de familiaridade. Mas, dessa vez, a exposição e as sensações vividas eram tudo, menos familiares.
Na exposição, vamos entrando gradualmente em um ambiente escuro. Vamos nos ambientando em um grupo guiado por um deficiente visual. Em uma sala pouco iluminada, começamos aprendendo a lidar com um instrumento vital nesta caminhada: a bengala. Todos nós reconhecemos um cego por sua bengala. Logo, passamos a confiar na bengala. É explicada a posição em que a bengala deve ficar para evitar acidentes. Inútil, ainda que nada grave tenha ocorrida: algumas bengaladas e muitos esbarrões são de praxe.
Como algumas pessoas me perguntaram: não, não há máscaras para evitar a entrada de luz. O ambiente é que escuro e sem luz. Não se vê nada mesmo. Deixamos todos os objetos que poderiam trazer luminosidade no armário da entrada (inclusive os onipresentes celulares).
A primeira sensação que nos toma é a vulnerabilidade. É um sentimento intenso. Quando a escuridão torna-se completa, só tenho a bengala e a voz do simpático guia Carlos para me ajudar. Nesta hora, os deficientes somos nós. Na escuridão, os papeis se invertem. Carlos esbanja bom humor e agilidade, está em seu ambiente. Nós não. Andamos em grupo, próximos um dos outros, demorando a entender o que está acontecendo. Não estamos preparados para interpretar os sinais desse ambiente. Cada passo demora. Será que vou cair em um buraco? (Não, o trajeto é totalmente seguro).
A escuridão é pesada, oprime. No início, sinto um pouco de falta de ar. Mas Carlos está lá, simpático, fazendo piadas sobre sua vida. Em meio às bengaladas, vamos avançando em um trajeto que aguça os sentidos (sons, cheiros) e simula um pequeno passeio por uma cidade. Tateamos números de casas, tocamos campainhas. Esperamos o sinal sonoro para atravessar a rua. A cidade real é difícil para Carlos, a cidade fictícia e escura é difícil para nós.
Enquanto rimos nervosos do quadragésimo terceiro esbarrão, do banco para sentar que não achamos, da escultura que não entendemos (nosso guia explica e, shazam, vemos com as mãos), Carlos preocupa-se com o “gringo”, se ele está entendendo tudo. Se não estamos nos perdendo.
O passeio acaba em um bar. Todo no escuro. Podemos comprar salgadinhos, chocolates, refrigerantes. Nesta última parada, Carlos nos conta de seus programas preferidos. Ficamos assombrados ao saber que em uma cidade como São Paulo não chega a meia dúzia o número de semáforos com aviso sonoro. Rimos quando Carlos nos diz que na frente das agências do banco que tem conta sempre tem uma banca de jornal, que quando sente o cheiro de jornal sabe que está perto. E diz tudo que a tecnologia assistiva lhe dá de autonomia. Ficamos sabendo que um cego depende mais de seu celular que um adolescente, que adoram gravar mensagens no whatts app. Claro que cometo uma gafe, ao pedir a opinião de Carlos, pergunto “como ele vê” determinada questão. Nada que abale o bom humor dessa manhã bem diferente.
É uma longa conversa sobre barreiras e autonomia. Vamos sabendo quais são as barreiras que ele tem que vencer a cada dia e como isso diminui sua autonomia. Sua e de outros, pois ali Carlos é a voz dos deficientes visuais. No escuro, a invisibilidade das pessoas com deficiência some à nossa frente. Somos forçados a enxergar Carlos, mesmo que não o vejamos.
E essa é uma lição sem preço. Vemos como o espaço público expulsa, segrega aquela pessoa que está conosco. Que quer as mesmas coisas que a gente. Um quase adolescente, que está no seu primeiro emprego e está adorando a experiência. Que gosta de passear com a namorada nos locais mais acessíveis e com mais opções para ele em São Paulo.
E assim nos colocamos no lugar do outro, coisa que é muito difícil. Quem vive a deficiência ou com ela convive, seja a física, intelectual ou sensorial, sabe disso. Para quem não possui a deficiência é quase impossível imaginá-la. Para quem convive com ela diariamente, a vida torna-se um exercício de observação dos obstáculos que a sociedade impõe às pessoas com deficiência, em um mundo tomado pela padronização, onde tudo é mais prático e mais barato quando feito em série, sem prestar atenção às diferenças.
À pessoa com deficiência sempre se pede compreensão. Compreensão pela falta de rampa, compreensão pela impossibilidade de um surdo estar lá por faltar um intérprete de LIBRAS ou de um cego atravessar a rua. Compreensão, pois o comportamento de um autista pode não ser adequado e não sabemos como lidar com ele. Compreensão com tanta coisa que nem dá para listar. À pessoa com deficiência sempre é pedido que compreenda nossas limitações. Difícil é encontrar quem compreenda a pessoa com deficiência e suas limitações. Ou pelo menos tente compreender. E os Diálogos no Escuro nos levam a compreender radicalmente estas limitações.
Mais que compreensão, a pessoa com deficiência precisa de políticas públicas adequadas, de serviços adequados. Nem toda boa vontade do mundo fará um cadeirante subir uma escada, cegos não vêem sorrisos, surdos não ouvem palavras amáveis se não forem acessíveis a eles.
Quando estamos nos preparando para entrar na escuridão, alguns perguntam: falamos lá? temos que ficar quietos? E nos respondem: na escuridão, quem não fala, é invisível.
Para tirarmos as pessoas com deficiência da invisibilidade é preciso falar. Que eles falem, que suas famílias falem, que suas vozes sejam ouvidas. Para afastar a escuridão, para afastar a invisibilidade.

Notas:
1) Obrigado à família Halpern Chalom, não só pela maravilhosa noite de Shabat mas por esta preciosa dica, dada pela Camila.
2) Página do “Diálogo no Escuro”no Facebook:
https://www.facebook.com/dialogonoescuro/?fref=ts
3) Vale a pena ler o relato do Bernardo K. Schanz contando a sua visita à exposição em Israel:

Diálogo na escuridão, para abrir os olhos


4) Dada Strauss, que trabalha no Museu das Crianças, fala um pouco sobre o Diálogo no Escuro e as demais exposições do museu:

A Cena Cultural em Israel

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Marcos Weiss Bliacheris

Inclusão se aprende em comunidade

06.08.2018

A inclusão se aprende na prática, vivendo. Ninguém aprende a incluir somente nos livros. Existe a teoria, mas nada...

O LADO JUDAICO DO SUPER BOWL LII

03.02.2018

Neste domingo, 04 de fevereiro, será jogada a 52ª. edição do Super Bowl que coloca em campo o New...

Extraordinário

27.12.2017

Está em cartaz nos cinemas o filme “Extraordinário”, baseado no livro homônimo. Estrelado por Owen Willians e Julia Roberts,...

Chalá redonda

20.09.2017

Rosh Hashaná é uma festa cheia de símbolos mas um que me fascina é a chalá agulá. Esta foi...

Ano Novo das Árvores

10.02.2017

No próximo dia 11 de fevereiro , no dia 15 do mês de Shvat do calendário hebraico, comemoramos o...