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Leniza Kautz Menda

De Amor e Trevas, o filme

16.05.2016

O filme, baseado na obra de Amós Oz, transporta para a tela do cinema momentos significativos da autobiografia desse famoso escritor israelense.

Natalie Portman, num papel magistral, é a mãe do pequeno Amós – Fânia – uma mulher depressiva e profundamente melancólica. Em Jerusalém, ela tem uma vida medíocre, demonstrando frustração e decepção com a rotina desgastante das tarefas domésticas. Nota-se um profundo descompasso entre os ideais românticos da figura materna e a aridez de seu casamento.

Ao reescrever a história da mãe, já na idade adulta, Oz acredita que sua mãe almejava ter uma vida diferente, talvez exercesse o magistério, escrevesse poemas líricos nas horas vagas e convivesse com artistas refinados. No livro, o escritor-narrador diz” … talvez ela quisesse escapar da mofada camisa-de-força do puritanismo e do mau gosto, fugir do materialismo e da mesquinharia, ao que tudo indicava exacerbados, do lugar onde ela tinha vindo”.

Essa mulher frustrada, no entanto, tinha um grande poder em suas mãos, pois Fânia era uma exímia contadora de histórias, as quais continham elementos fantásticos, além de heroínas em perigo que são salvas por heróis românticos. Talvez ela buscasse a sua salvação através da ficção; não conseguiu, porém, se recuperar de seus traumas psicológicos em razão das inúmeras perdas que tivera ao longo de sua vida.

A morte, imaginada e incorporada na personificação de um amante, era a única forma de resgatá-la da prisão e do inferno astral em que vivia.

A ima (mãe) tem um papel primordial no embrião e na formação do futuro escritor. O pequeno Amós ouve, fascinado, as histórias maternas que se corporificam em sua imaginação, visto que as cenas dos relatos aparecem vívidas em sua mente.

A mãe também é responsável pelo exercício da sensibilidade, da tolerância e da empatia, elementos essenciais na obra do escritor. Ela deixa um imenso legado ao filho, pois conhece a sua natureza sensível e o incentiva a manter o comportamento altruísta na idade adulta.

Tanto o filme como o livro constituem um profundo resgate da história materna e um bálsamo para o autor. O relato do último parágrafo do livro nos toca profundamente, uma vez que é impossível voltar ao passado e modificá-lo:

“ Se eu estivesse ao seu lado naquele momento, naquele quarto que dá para o pátio dos fundos do prediozinho de Chaia e Tzvi, às oito e meia ou quinze para as nove daquela noite de sábado, teria tentado com todas as forças lhe mostrar por que não devia. E se não conseguisse, teria feito de tudo para despertar sua compaixão, para que ela tivesse pena de seu filho único (…) Ou me atiraria sobre ela como um assassino, e sem hesitar empunharia um vaso e bateria em sua cabeça(…) Ou aproveitaria sua exaustão para dominá-la e amarrar suas mãos às costas e tomaria dela todas as suas cápsulas, pílulas e comprimidos e xaropes e infusões. Mas não me deixaram estar lá. Nem no enterro deixaram que eu fosse. Minha mãe adormeceu, e dessa vez o seu sono não teve nenhum pesadelo e nenhuma insônia (…) Meus tios Tzvi e Chaia chamaram uma ambulância um pouco antes de o Sol nascer, e dois enfermeiros deitaram-na em uma maca e a levaram suavemente, para não atrapalhar o seu sono, e no hospital ela também não quis ouvi-los, e apesar de eles terem tentado de várias maneiras perturbar o seu bom sono ela não lhes deu atenção, nem ao médico especialista que havia lhe dito que a alma é a mais terrível inimiga do corpo, e também não despertou de madrugada, nem quando o dia clareou, nem quando de entre os ramos do fícus no jardim do hospital o gentil passarinho, Élise, a chamou espantado, e repetiu mais uma vez, e mais outra, inutilmente, e ainda assim tentou de novo, e outra vez, e ainda tenta, às vezes”.

2 Comentários a De Amor e Trevas, o filme

  1. Tânia Maria Baibich's Gravatar Tânia Maria Baibich
    19 de maio de 2016 at 12:48 | Permalink

    Quão sensível é, sempre, teu olhar, Leniza querida.
    A quem não leu ainda o livro, se me permitisses, colocaria um PS: é para ler de joelhos. beijo grande. T^Caçula

  2. ENIO ARAO LINDENBAUM's Gravatar ENIO ARAO LINDENBAUM
    13 de maio de 2019 at 07:58 | Permalink

    Leniza, esta flor sensível e culta que voce é, traduz com toda a força uma condução para assistir e ler outro sensível e culto, Amos Oz. Grato querida, por mais esta

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