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Wremyr Scliar

Professor de Direito Administrativo (PUCRS), Doutor, Mestre e Especialista em direito.Conselheiro substituto emérito aposentado do Tribunal de Contas - RS. Comenda Oswaldo Vergara - OAB RS. Primeiro diretor da Escola de Gestão e Controle do Tribunal de Contas - RS.

D. Paulo Evaristo Arns e Vladimir Herzog

15.12.2016

O falecimento do arcebispo emérito de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns aos 95 anos no último dia 14 de dezembro remete à memória da morte de Vladimir Herzog em 25 de outubro de 1975.

Naquele período dos anos de chumbo, sob ditadura no Brasil, Vladimir Herzog apresentou-se espontaneamente à delegacia de polícia política para ser inquirido. Era o diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo.

No dia seguinte uma foto divulgada pela imprensa mostra Vlado enforcado com seu cinto, ajoelhado e preso à maçaneta da janela, em pouca altura, da cela onde estava detido: teria cometido suicídio.

Entra em cena  outro personagem da História, o rabino  Henry Sobel.

Com a certidão de óbito assinada por médico legista atestando suicídio, Vlado deveria ser enterrado no cemitério israelita junto ao muro, em local indigno.

Sobel exigiu a abertura do caixão, mas os policiais negaram-se a abri-lo por ter sido um prisioneiro político.

Sobel contou pessoalmente a esse autor: sem abertura, não haveria  ritual religioso e sem ele não haveria  enterro.

O rabino criou habilmente uma armadilha: ameaçou divulgar à imprensa internacional o fato de não ter sido permitido um enterro segundo os cânones religiosos judaicos.

O impasse foi resolvido com o recuo dos prepostos da ditadura. Sobel examinou o corpo e com um gesto dramático para mim mostrou-me que havia ferimentos disseminados pelo corpo. Não fora suicídio.

Logo outra cova foi aberta em local central no cemitério e o consolo religioso foi prestado com todas as exéquias devidas.

Em seguida, D. Paulo  resolve oficiar uma missa na Catedral da Sé e convida o rabino Henry Sobel para participar.

Milhares de pessoas se reúnem no tempo paulista, cercados pela polícia que, à saída, agrediu com violência os que chegavam à rua.

Certamente a multidão, D. Paulo e o rabino Sobel estiveram sob ameaça de espancamento  generalizado ou prisão, ou, ainda,  de um atentado terrorista de Estado.

A lição desse episódio é a memória ética e reverenciada de figuras icônicas que estão ligadas para sempre entre si e a História.

D. Paulo, que acolheu os pobres e os deserdados, escondeu e apoiou os que combateram a ditadura militar que derrubou um governo legítimo, inclusive centenas de padres e pastores;  Vladimir Herzog, o judeu que não temeu se apresentar de livre vontade para enfrentar o risco da morte e acabou assassinado em dependências policiais.

Em julho de 1979, Clarice Herzog – viúva de Vlado, obteve sentença favorável ao reconhecimento da responsabilidade do Estado e foi indenizada – o valor foi doado à instituição de caridade. O juiz decretou reconhecer que a morte decorrera de maus tratos e a certidão de óbito substituída para nela constar, em troca a suicídio, a morte provocada pelo Estado.

D. Paulo Evaristo Arns viveu e agiu  intensamente.

Pouco antes de morrer disse que aprendera mais no convívio com o povo do que nos seus anos de Sorbonne.

Jamais um prelado católico havia sido tão corajoso e ousado. Não apenas celebrou a memória e a alma de  Vlado no principal templo paulista como convidou um rabino a partilhar dos ofícios religiosos, mesmo cercados pela violência da polícia.

Os judeus, em particular, e todos os homens, pranteiam a morte de Vlado, vítima judaica da ditadura militar e homenageiam a quem teve a coragem de afirmar a verdade: D. PAULO EVARISTO ARNS.

Os direitos humanos estão acima de diferenças de religião ou quaisquer outras distinções.

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