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Leniza Kautz Menda

Contos do Imigrante (depoimento de um imigrante atormentado) – Samuel Rawet

12.01.2016

Quando milhares de imigrantes e refugiados saem de seus países de origem em busca de melhores condições de vida, devemos nos lembrar dos imigrantes que aqui chegaram e contribuíram com seus esforços para a grandeza de nosso país.

Vem-nos à mente um escritor de origem polonesa nascido em 23 de julho de 1929, em Klimontov – Samuel Rawet, cuja vida e obra foram pautadas pela desagregação de valores, solidão, melancolia bem como pela não- adaptação de seus personagens aos valores do Novo Mundo.

“Contos do Imigrante”, publicado em 1956, foi considerada a obra que inaugurou a literatura judaica no Brasil. Através de uma linguagem concisa e inovadora, Rawet nos apresenta o tema da marginalização do imigrante que, na condição de judeu errante, está à procura da segurança que o mundo perdido lhe conferia.

Os personagens de Rawet, sempre abordados sob um ponto de vista intimista, sentem-se “estrangeiros no mundo”, tanto sob o prisma do judeu em relação ao outro (não-judeu) como sob o prisma do judeu em relação a outro judeu.

“Gringuinho”, um dos contos do livro, faz parte da coletânea “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” e retrata o caos instaurado na vida de um menino judeu em sua fase escolar. O ponto de vista da narrativa se concentra na ótica interna, pois o narrador-personagem, alterego de Rawet, expressa, por meio de suas recordações, a dor da perda dos amigos, da natureza, dos folguedos infantis e dos momentos idílicos que tivera antes da vinda para o Brasil. O navio em que viera o imigrante simboliza a ruptura entre o presente atormentado na escola e o passado em comunhão com a língua-pátria e os bosques plenos de framboesas e castanheiros. A descoberta de si próprio num país hostil vem acompanhada de muito sofrimento; além da sensação de estranhamento, ele recebera o apelido pejorativo de “Gringuinho” , o qual abre um fosso e impede a aproximação com o “outro”. A barreira da língua contribui para enfatizar a cisão entre o “eu” e o próximo. “Parecia um bicho encolhido, jururu, paralisado…” “Fala Gringuinho. Coro. Fala Gringuinho. Novamente as vozes atrás da carteira. Da outra vez correra como acuado em meio a risos”.

As vivências hostis incitam a rebeldia do garoto que passa a demonstrar instintos agressivos em relação aos colegas e adultos representados pela autoridade da professora ou, na falta de uma melhor opção, o recurso da mudez para fazer frente às provocações. O menino, para compensar as perdas, anseia por seu crescimento na esperança de que, tornando-se “homem”, poderia encontrar alguma espécie de compensação para cicatrizar as feridas provocadas pela condição de imigrante.

Assim, o conflito a que estão expostos os personagens de Rawet poderiam ser expressos através da citação de Heine: “Torturado vou morrendo, a raiz da minha vida está danificada. Ai, isto vem de um pontapé que me deram no coração”.

Rawet denuncia a intolerância em relação ao imigrante, causa de choques e conflitos na atualidade. Embora o Brasil o tenha acolhido com cordialidade, seu depoimento é o de um imigrante atormentado.

2 Comentários a Contos do Imigrante (depoimento de um imigrante atormentado) – Samuel Rawet

  1. zalmir's Gravatar zalmir
    29 de janeiro de 2016 at 12:57 | Permalink

    Oi Leniza
    que lindo o artigo sobre o imigrante.
    O tema me sensibiliza muito.
    Da forma como o colocas, mais ainda
    parabéns
    bj

  2. William Santos's Gravatar William Santos
    14 de maio de 2016 at 12:37 | Permalink

    Leniza, me alegra o fato de, em 2016, eu não ser um dos poucos a tratar da obra de um ilustre escritor de origem judaica, que é Rawet. Tenho estudado sobre a sua obra numa tese de mestrado que estou por concluir. Não sou imigrante, tampouco judeu, mas o meu interesse e sensibilidade ao tema me levaram à escolha de Rawet como objeto de estudo.

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