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Ceia de Pessach, a Páscoa judaica, será celebrada na Catedral Metropolitana de Porto Alegre

07.04.2017

Po r Léo Gerchmann – Zero Hora – 06.04.2017

Um dos símbolos mais fortes do judaísmo, para manter aparentes paradoxos como tradição e evolução caminhando juntos, é o do violinista no telhado, tema da literatura adaptado para o cinema e o teatro. A imagem icônica é de um necessário equilíbrio, que se mostrará também no próximo dia 11, às 19h30min, quando o rabino Guershon Kwasniewski oficiará a ceia de Pessach (Páscoa judaica) na Catedral Metropolitana da Capital. Nesse momento raro, haverá grande ação inter-religiosa e a demonstração de que é possível a convivência de duas culturas diferentes se aceitando e respeitando em um universo amplo e plural.

A iniciativa, tomada pela Arquidiocese da Capital e pela Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (Sibra), dá-se em meio a notícias de intolerância e violência crescentes. As entidades religiosas pretendem “se aproximar para desenvolver a cultura do encontro”, conforme diz o texto de divulgação do evento. Em dezembro, Guershon e o bispo auxiliar Leomar Brustolin estavam reunidos para tratar de um cronograma conjunto, quando surgiu a ideia. Em um primeiro momento, pretendia-se realizar o evento em dia alternativo. Mas o projeto tomou corpo, e o jantar, totalmente a rigor, ocorrerá exatamente no dia do seder (o nome da ceia em hebraico).

Na noite da última quinta-feira, Guershon, Brustolin, o arcebispo Jaime Splenger e o presidente da Sibra, Daniel Weiss, conversaram com Zero Hora sobre o evento, inédito no Brasil. A entrevista em si foi símbólica: sob o teto da Catedral, os presentes dividiam o pão ázimo chamado matzá, que os hebreus comeram quando, ao fugir da escravidão no Egito, não tinham fermento para o pão — naquele momento, todos os religiosos monoteístas seguiam a mesma fé. Essa travessia é justamente o tema que está por trás do Pessach e que traz o significado da libertação. Foi o arcebispo, com a voz calma e pausada, quem lembrou uma curiosidade: o seder mais famoso já realizado é o que Jesus compartilhou e que ficou conhecido como a Santa Ceia.

— É na aproximação da identidade de cada um que se pode aprofundar o princípio do diálogo, da fraternidade — disse o arcebispo, em raciocínio imediatamente completado pelo rabino:

— Precisamos saber quem somos para poder dialogar com o próximo. Precisamos criar uma base de respeito para conhecer as tradições. É um bom momento de aproximação e de diálogo. A palavra tolerância tem conotação negativa. Quando digo que te tolero, quero dizer que tem algo em ti que me incomoda, mas convivo contigo.

Brustolin, falando em aspectos culturais como a contribuição ética judaico-cristã para a formação da civilização ocidental, lembra a tradição de diálogo inter-religioso existente na capital gaúcha.

— O evento está no contexto de uma aproximação entre judaísmo e cristianismo aqui em Porto Alegre há mais tempo. Temos um documento do Concílio Vaticano II que diz que temos vínculo espiritual com os descendentes de Abraão. Essa aproximação não elimina nossas diferenças, mas supera as distâncias — diz. — O judeu continuará cada vez mais judeu, e o cristão cada vez mais cristão, mantendo suas identidades.

O bispo adjunto também enfatiza que, “se por um lado a Igreja abre suas portas em um dos seus espaços para acolher a comunidade judaica, por outro a comunidade judaica se abre para celebrar em um espaço cristão”.

Todos coincidem em enaltecer a importância do evento para Porto Alegre, por colocar a cidade na vanguarda da pluralidade e por esvaziar preconceitos em seu meio.

— Essa aceitação só reforça o posicionamento em prol da fraternidade, do convívio, da boa relação em Porto Alegre. Damos um exemplo de como isso é bom para as duas comunidades — completou Weiss.

O arcebispo completou dizendo que “amamos o que conhecemos” e que os preceitos éticos estabelecidos pelas culturas judaica e cristã precisam ser disseminados pelos próprios seguidores. Weiss contou, então, que muitos integrantes da comunidade judaica estão convidando amigos cristãos para irem junto à histórica ceia do dia 11.

PROGRAME-SE

> A ceia do Pessach, tradicionalmente realizada nas sinagogas, terá como cenário o subsolo da Catedral Metropolitana de Porto Alegre, espaço de eventos culturais e sociais.

> A celebração chamada de Pessach, que recorda o êxodo do Egito, será no dia 11 de abril, às 19h30min.

> A ideia é de que as pessoas valorizem o significado da liberdade ao se colocarem no lugar de quem foi escravo. Fazendo isso, adotam a postura de não mais se deixar escravizar.

> A palavra “Pessach” significa “passagem”, em hebraico, e dá origem à palavra Páscoa, que também tem o significado de passagem e libertação.

> A Páscoa cristã é festividade religiosa que celebra a ressurreição de Jesus ocorrida três dias depois da sua crucificação no calvário.

> Os ingressos custam R$ 90 (R$ 70 para crianças de quatro a 12 anos) e já podem ser adquiridos na Cúria Metropolitana e na sede da Sibra (Rua Mariante 772, bairro Rio Branco).

Pelo menos 250 pessoas são esperadas para o jantar, que seguirá todos os rituais tradicionais, com comida típica e cânticos em hebraico e aramaico.

 

Fonte: Zero Hora

 

Assita o vídeo do pronunciamento da senadora Ana Amélia Lemos sobre o Seder de Pessach na Catedral em sua fala no Senado Nacional

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