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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

As águas da Mikva

09.12.2015

“Ela deve imergir todo seu corpo na Mikva”
– Levítico 15:16

Antes do casamento judaico é costume que os noivos fiquem uma semana sem que se vejam ou sequer se falem. Assim, nos dias anteriores, ninguém brigou com ninguém. Não teve ciúme, atrito, desentendimento algum. Quando reencontram-se é apenas saudade e coração explodindo. Ausência faz o coração desejar mais.

Admiro a sabedoria e mística judaicas mas mesmo assim, sempre olhei com distanciamento para a Mikva. Segundo a religião, suas piscinas de águas mornas precisam captar água natural que chegue na altura do peito de quem entre. É um local sagrado e cheio de energia, utilizado na conversão e para as mulheres que purificam-se para seus marido após o período menstrual. O ciclo de sangue é sucedido por sete dias brancos – puros – e somente então, o mergulho nas águas da Mikva. São dias ausência, sem contato físico, para que o coração possa explodir mesmo com o passar dos anos. Segundo a explicação sensível que me foi transmitida “a Torá está ciente de que a mulher quer ser tocada, ouvida e sentida de forma verdadeira. Este período permite que o marido esteja mais atento à feminilidade de sua esposa e ela, aos pontos sensíveis dele. Traz um valor mais profundo aos cinco sentidos”. Tanta beleza quebrou meu distanciamento.

Minha primeira imersão aconteceu antes de casar. Segui os costumes, tirei jóias, esmalte, lavei os cabelos demoradamente. É preciso limpar tudo o que possa interferir no toque entre a água e o corpo. Absolutamente nua, recitei as bênçãos e mergulhei três vezes após o anoitecer, com as mãos cruzadas abaixo do coração. Acredita-se que começamos um novo ciclo emergindo das águas e por este ser um momento de proximidade entre a mulher e D’us, é especialmente propício para preces ou pedidos pessoais. Tenho grande dificuldade em acreditar no que não seja comprovado cientificamente, mas emergi após desejar muito meu futuro marido, pronta para enxergá-lo com saudade e coração explodindo. E foi assim que aconteceu naquele mês de junho.

Não tenho uma rotina religiosa. Sou judia laica e apesar da emoção, nunca mais tinha voltado à Mikva após minha primeira experiência. Casei, mudei e engravidei até ter nova vontade de mergulhar, num momento sensível em que desejava outro bebê que não chegava.

Novamente segui os costumes. Tirei jóias, esmalte, lavei os cabelos demoradamente. Absolutamente nua, recitei as bênçãos e mergulhei na Mikva três vezes após o anoitecer, com as mãos cruzadas abaixo do coração. E desejei muito. Emergi. Sai. Precisava voltar para casa, mandar alguns e-mails, preparar o jantar, correr. Sempre.

Um mês depois, comecei um novo ciclo, esperando meu Beny.

A linha entre o racional e o místico pode ser tênue. Sou prática, ávida por respostas. Prefiro ‘sim’ e ‘não’. Flerto sempre com a racionalidade. Mas a sensibilidade e os mergulhos nas águas da Mikva me ensinaram que existe mais. E eu escolhi acreditar.

 

Mikve 2

(Mikveh do século 12, em Besalú, Espanha. Foto: Red de Juderias. Fonte: Conib)

1 Comentário a As águas da Mikva

  1. Brenda Ribemboim Bliacheris's Gravatar Brenda Ribemboim Bliacheris
    10 de dezembro de 2015 at 13:25 | Permalink

    Como sempre suas palavras cheias de sensibilidade vão direto aos nossos corações e reacendem o melhor de nós. Obrigada!

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