Blogs

Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Aromatizando

21.09.2016

Fui apresentada ao caldeirão por minha sogra numa tarde fria de São Paulo. O perfume estava por toda a sala, mas a aparência definitivamente não me convenceu. Recusei educadamente aquele cozido bege com objetos indefinidos. “Prova”. “Não, obrigada”. “Você vai gostar”. “Não estou com fome, verdade”. “Só um pouquinho”. Só um pouquinho e minha opinião sobre conforto, tardes frias e culinária judaica nunca mais foi a mesma.

Esqueça tudo o que já ouviu sobre panelas fumegantes e leia o texto imaginando um aroma denso invadindo a casa. E a alma.

O tcholent – uma espécie de feijoada de origem polonesa – começa a ser preparado antes do pôr-do-sol de sexta feira e segue cozinhando até o almoço de sábado. Fogo baixo e sem mexer na panela, já que é comumente – e originalmente – preparado por famílias que observam o shabat, dia do descanso, o que o caracteriza como um prato tipicamente judaico.

Acomode em camadas as batatas, cebolas com casca, alhos (muitos), cevadinha, feijão branco, feijão roxo, ovo com casca, costela, coxão duro, músculo, ossobuco, sal e pimenta. Regue com abundante caldo de galinha. Feche os olhos e conecte-se a milhares de anos de história. Antes de acender as velas de shabat, separe o helzel – ou pele do pescoço de galinha – que será preenchido com o caldo misturado à farinha e cozido antes de servir. Acreditem, é divino.

Na Europa Oriental era o tcholent que preenchia as gélidas casas de madeira dos shtetl com aroma e calor. No leste europeu, naquelas ruas de terra batida, privação extrema e confinamento, os judeus guardavam seus valores, o orgulho que nutriam pelo conhecimento e a esperança de um futuro melhor. E desde aqueles tempos, cada família tem a sua receita do cozido intimamente relacionada à sua história e ao seu caminho durante a diáspora.

A minha, ganhei de presente da família que me acolheu e está bem guardada entre os livros para que siga adiante através das gerações.

Naquele papel há mais que medidas e ingredientes. É alquimia contando um pouco da história de nosso povo.

 

shtetl

Deixe um Comentário

Outros Artigos de Nurit Masijah Gil

Vivendo em Israel: Ulpan e inspiração

30.01.2018

Primeira história: Ela tinha as portas dos armários forradas de poesia porque queria saber declamar de cor – talvez...

Jerusalém, capital de Israel

08.12.2017

No dia em que EUA reconheceu oficialmente Jerusalém como capital de Israel… O despertador tocou cedo. Lá fora, o...

Perfumando a memória

24.10.2017

Sou brasileira apesar deste país tropical ter estampado a capa do passaporte de poucas gerações da família. Como qualquer...

Viver Israel

12.09.2017

A escolha deste país pode parecer fazer todo o sentido. Claro que faz. Mas ela habita muito além do...

Taly e Beny

19.04.2017

Taly e Beny, Choveu hoje cedo e acordei durante a madrugada pensando se os levaria para a escola. Se...