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Nurit Masijah Gil

Sou paulista e moro em Porto Alegre há tempo suficiente para não lembrar da vida antes do ‘bah’. Publicitária, pós graduada em marketing, mãe de duas crianças incríveis (desculpem, foi irresistível), empresária e com desejos literários, meu objetivo nesta coluna é sensibilizar nossa sociedade com informação para desconstruir esterótipos e diminuir preconceitos. Parece utopia, mas prefiro acreditar não passa de um bom desafio.

Aqui parou de chover

16.03.2016

Sobre tudo o que invadiu nosso cotidiano, nossa timeline e nossa esperança…

 

Eu saí de casa pela primeira vez aos vinte e três anos. Antes disso, já tinha dado alguns passos. Poucas dezenas de quarteirões, um bocado de noites fora e, no máximo, alguns dias do calendário pelo estado mais próximo. Mas eu só saí de casa aos vinte e três anos.

Foi aí que arrumei minhas malas com o suficiente não somente para alguns dias sem ter que lavar roupas, mas com o que escolhi para me acompanhar em uma nova vida. Eu achava que com minhas peças preferidas, livros inesquecíveis e escova de dentes eu estaria pronta. Então voei muitos quilometros, arrumei o novo armário, perfumei a nova sala, ajeitei a nova casa. E desabei.

Foram precisos uns bons anos para eu entender que sair de casa dói. Que eu não estava pronta quando decidi e que eu não estaria pronta nunca se de fato não arrumasse minha mala de supérfluos e partisse. E chorasse. E me arrependesse. E me conformasse. Até que amasse.

Ao primeiro sinal de amor, construí uma casa e plantei uma muda de jabuticabeira. Estava saudosa das raízes, as mesmas que me reconfortaram nos primeiros vinte e três anos. Reguei até que ficassem profundas. Me apeguei. Planejei uma dezena de anos à frente. Estava, finalmente, em casa.

Até que aconteceu novamente.

Faz tempo que parou de chover. A terra está seca e minha fonte, antes caudalosa, secou. Eu tenho raízes e tenho asas. Voar traz o medo, o incerto, a saudade que dói. Minhas raízes sempre foram, afinal de contas, plantadas com amor. Mas o céu está tão brilhante. Resolvi atiçar a coragem, colocar a mala empoeirada para tomar sol, tirar o mofo e, quem sabe, abrigar meus supérfluos que certamente serão insuficientes.

Se eu ficar, talvez minhas raízes sequem. Se voar, talvez machuque as asas.

Mas de qualquer forma, aqui parou de chover.

 

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